Anônimo - Parte 1

Zrrrrriiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinnnnnnnnchhhhhhhhhhhhh!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

     O barulho constante da serra elétrica quase impedia a conversa no segundo andar de uma modesta marcenaria na Rua Almeida de Moraes, Vila Mathias, em uma tarde ainda ensolarada do verão de 1972 em Santos, litoral de São Paulo. Apesar do ruído, dois homens tratavam de acertar prazos e preços. Ambos ocupavam cadeiras baixas em torno de uma mesa ovalada onde repousavam duas xícaras de café com cores diferentes. O mais alto deles usava um pequeno bloco de anotações e um lápis gasto com uma borracha enegrecida na ponta, o que não o impedia de levar o objeto à língua cada vez que um novo apontamento precisava ser feito. Falava mansamente e entremeava um valor e outro com francos sorrisos que deixavam seus dentes bem tratados à mostra. Sob a visão do outro, mais baixo, parecia fazer parte daquele cenário de final de dia, à frente da janela que, apesar de empoeirada, permitia a entrada de uma luz difusa que contornava seu perfil em contra luz, enquanto lá fora o sol começava a dar os primeiros sinais ao poente.

      Santos tem a peculiaridade de ver o sol nascer em outro município, São Vicente, próximo à Ilha Porchat e acompanhar sua despedida diária quase no Guarujá, outra cidade próxima. Em 1972, o verão durara mais que o esperado e não eram raras as previsões de claridade mesmo após as 19h, o que animava a população ávida por um momento de lazer nos 8 km de jardins e praias da cidade após um dia estafante de trabalho em sua maioria no comércio local, sustentado pela atividade incessante do maior porto da América Latina, onde cerca de 80 cargueiros chegavam e zarpavam a cada mês. Se o sol servia de estímulo a uns, adiava os planos de uma parcela da população santista que não era computada nos censos regulares promovidos a cada cinco anos pelo regime militar imposto no Brasil. Longe das pranchetas dos pesquisadores que usavam as palmas das mãos como campainha ao chegarem às casas de família para aferir a quantidade de pessoas e bens que estas dispunham, uma outra gente aguardava a noite para ser notada. Era ao cair do sol que, a exemplo das grandes cidades, Santos mostrava seu lado sombrio, escondido das estatísticas oficiais. A clara tranqüilidade cedia lugar a trapos, sujeiras, odores desagradáveis e à incômoda sensação de busca por um espaço a salvo que acompanha aqueles que vivem e fazem da rua o seu sustento. Estima-se que, somente na região periférica do porto, naquele início da década de 70, 10 mil pessoas não pudessem responder ao bater de palmas de pesquisadores, visitantes, carteiros ou vendedores pelo simples fato de não haver porta a ser aberta ou bens a serem contados. Crianças, mulheres e homens classificados como mendigos.

      A Vila Mathias é parte da periferia portuária, embora desfrute de uma certa complacência por parte dos bairros mais próximos à praia, como o Gonzaga, seu vizinho mais rico. Muitos dos moradores que desfrutam da brisa marítima ao abrir as pesadas janelas de seus apartamentos, tiveram ou mantém ainda algum parente morando nesta Vila formada por 43 ruas e vielas que cortam ou seguem em paralelo à principal avenida do bairro, Ana Costa. Nas missas de domingo, na Igreja do Coração de Maria é possível ver mães espanholas e portuguesas com seus lenços decorados sobre as cabeças e ombros tentando domar seus pequenos enquanto os pais, de mesma origem, misturam seus sotaques em preces à mãe de seu Deus católico. A cada data religiosa, procissões tomam o bairro e as preces cedem lugar a cantos com os mesmos sotaques e fé redobrada. Armazéns de secos e molhados, escolas infantis, padarias, revendedoras de autos usados, mercearias, bares e açougues mantém vivo o dia a dia destas famílias em grande parte numerosas, que mantém a tradição oral das histórias contadas de geração a geração por bisavós, avós e mães sentadas em cadeiras de praia espalhadas pelo cimento das calçadas em frente às portas abertas de casas onde se pode ouvir uma nevitas ou um fado em vitrolas brancas e azuis. Sempre ao cair do dia, não tão longe dos quilômetros de areias da praia, mas perto demais da negra água do mar portuário.

      A torre da Igreja ainda vibrava com a quinta das seis badaladas do sino do Coração de Maria indicando 18h quando o ruído da serra elétrica cessou. Os dois homens fizeram o sinal da cruz. O mais baixo levantou-se. O outro encaixou o lápis na orelha direita e apertou a mão estendida à sua frente. Enquanto o cliente descia os degraus da escada de madeira crua, Luis Carlos da Silva, um filho de portugueses de 28 anos, sentava-se novamente em frente à janela, fechando o bloco de anotações. Eram mais dois pedidos feitos. Outro mês sem maiores preocupações que não fossem baratear os custos de mão de obra e material para que o lucro pudesse ser melhor. Deixou o lápis sobre a mesa, calçou seus sapatos, sempre dispostos ao lado de sua cadeira e desceu em direção ao andar térreo, onde o último de seus dois funcionários o esperava junto à porta. Saíram juntos, e logo se separaram. Luis atravessou a rua e preparava-se para virar a esquina rumo a avenida Ana Costa, que cruzaria sem muito esforço para andar mais duas quadras e chegar à Antonio Bento, onde, se ainda desse sorte, veria sua mãe e esposa, lado a lado, sentadas em suas cadeiras de praia, tricotando fossem pontos na lã ou palavras com as vizinhas, enquanto sua pequena Andréia ensaiava os primeiros engatinhos. Essa era a cena real que aguardava Luis, que antes de virar a esquina da Almeida de Moraes parou e olhou com orgulho para a fachada de seu pequeno negócio onde uma placa feita de madeira envernizada trazia talhado “MARCENARIA”. Assim, sem nome, sobre a marquise amarela.

      É difícil precisar o que define a hora de recolher as cadeiras, se os sete toques do sino, o sol que parte por aquele dia ou o início da  movimentação de pessoas que não pertencem àquele local, visto que tudo acontece ao mesmo tempo. O fato é que as cadeiras dão lugar a papelões, a gritaria de crianças em festa abre espaço ao choro contido de mães e seus filhos famintos e a parca iluminação das ruas parece não proteger as portas e algumas janelas ainda abertas nos primeiros minutos de uma noite de verão. Os becos do bairro ganham um outro tom nas cores e nos sons e uma outra procissão percorre a avenida, em busca de espaço, comida e conforto. Sem fé.

      Uma única e singela badalada apontava 21h30. Luis beijou a esposa, espiou a filha que já dormia e descansou os cabelos ainda molhados pelo banho em seu travesseiro no quarto da frente da ampla casa de três quartos que dividia com a mãe. Morava ali desde que nascera, em junho de 1944, época em que seu pai trabalhava como chofer de praça na mesma Vila Mathias. Seu Coimbra, como era conhecido, pela origem, não pelo nome, dividia o volante de um táxi em turnos de 12 horas com outro motorista. Nenhum deles era o proprietário do automóvel que pertencia a um ex-inspetor do cais que  vivia de renda. Da renda deste e de outros dois carros de praça, dizem, que comprados com dinheiro incompatível com sua retirada de aposentadoria.

      Luis sorriu e sentiu o gosto do chocolate que o pai lhe trazia às sextas feiras, embrulhado em papel vermelho, como uma surpresa que se repetia a cada semana em um jogo de carinhos e certezas entre pai e filho. Dona Marta, sua mãe, fazia vistas grossas àquela pequena extravagância familiar, certa de que a alegria de ambos compensava a despesa. Havia 10 anos que Seu Coimbra se fora. Tudo havia sido rápido. Da primeira queda e internação ao funeral foram pouco mais de 3 meses. Luis, aos 18 anos de idade, recém dispensado do serviço militar, tinha agora uma mãe, uma casa, nenhuma economia e uma enorme lacuna a suprir. O emprego como bedel em um curso vespertino foi talvez a única ajuda que recebera naqueles dias. O companheiro de carro do pai acionara um conhecido que falara com um amigo e lá estava Luis, de olho em jovens como ele à frente dos corredores da Escola Coelho Neto, no centro de Santos. E foi nas oficinas da escola que Luis desenvolveu aquilo que transformaria em seu ofício. Durante as manhãs, por sete meses, aprendeu a cortar, lixar e, aquilo que considera principal, moldar a madeira. Trocava horas de trabalho por aulas de marcenaria. Não tardou e, no final do ano em que perdera o pai, o jovem Luis trouxe seu primeiro chocolate de presente para a mãe. Embrulhado em papel vermelho, numa sexta-feira.

      O décimo toque do sino na torre da Igreja fez com que a pequena Andréa gemesse em seu berço e Luis despertasse de seu sonho acordado. Foram-se 10 anos. Da escola a serviços gerais de um consultório médico, das salas de exames à construção, sempre sob encomenda, de pequenos armários e balcões dos negócios dos pacientes e seus acompanhantes. Dos pedidos esporádicos aos constantes. Em uma década, chegara ao seu próprio negócio. Uma modesta marcenaria, de fachada amarela, onde, sem que ele soubesse, neste exato momento, uma família de três mendigos tentava acomodar-se sobre finas fatias de pano, sob a marquise.

     Luis adormeceu.


(continua)



Escrito por Antonio Guerreiro às 17h18
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Cuidado com a Apple

Com todo o respeito que mereçam todas as crenças, o link abaixo beira o inacreditável:

 

http://igrejainternacional.wordpress.com/2009/06/12/a-maca/



Escrito por Antonio Guerreiro às 18h19
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Os outros

Há vinte anos vivo de audiência. Nunca trabalhei em nada, absolutamente nada em que não tivesse que gerar atenção. Rádio, TV, Internet. Há 20 anos dependo do que os outros vão achar daquilo que faço para poder pensar em fazer minha faculdade, comprar meus discos, viajar com os amigos, namorar, comprar o primeiro carro, aumentar a estante de livros, trocar o carro, noivar, casar, pagar a casa, ter filho, educá-lo. Os outros. São eles que decidem se manterei meu emprego ou minha empresa ao final do mês, do trimestre, do dia ou do minuto (isso depende da mídia em que estiver e do quão instantânea ela se mostrar). O que os outros pensam de meu trabalho, por menos que ele apareça é o que define meu futuro. Mas e eu, o que penso dos outros?

O outro é o ser mais próximo e mais distante que você pode encontrar. É uma imensa massa invisível que se faz ouvir a todo tempo. É o monstro que urra e toma forma na escuridão querendo devorar o artista no palco do estádio, como na excelente crônica de Marcelo Coelho na Folha de anos atrás, quando os Stones pisaram no Morumbi. O outro é o íntimo estranho. O porteiro do prédio com quem você troca olhares de identificação - espécie de leitura de íris natural - para que ele abra o portão e você entre blindado em seu carro. Qual o nome do dono daquele olhar? O outro é a moça da padaria que te diz diariamente "sete e cinquenta" e vislumbra o nada enquanto você busca a moeda perdida no fundo de algum bolso. A moça vira um bom dia ou dois, o da entrada e o da saída. Qual era a cor do esmalte que ela usava? O outro é o manobrista do estacionamento do trabalho. Este é o Zé, você sabe e está sempre sorrindo. Zé de quê? Zé de quem? Sorrindo por que?

Nunca saberemos por que ela respira de maneira aflita esperando o ônibus, qual o motivo que leva aquele homem a andar cabisbaixo rua acima, o que faz com que os olhos da menina marejem. Eles são os outros. Estão em todo lado, prontos para nos consumir em seus aparelhos eletrônicos, sem a noção do poder que têm.

O que penso dos outros? Não penso. Apenas gostaria de poder conhecer suas histórias.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h28
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O planeta fica melhor sem mim

Obviamente não sei quando deixarei esta rumo a uma outra, seja melhor ou não, mas uma coisa é fato. O planeta ficará melhor sem mim. Ou melhor, sem todos da minha (sua?) geração. Explico.

Por mais educado que tenha sido (e fui, dona Hilda, pode ficar tranquila) eu literalmente - como dizer...bom, do único jeito que é possível - caguei para o planeta durante anos. Vai dizer que nos anos 70 você procurava uma lixeirinha bacana nas ruas para jogar o papel da bala Juquinha que você acabara de ganhar da sua tia? Na Santos desta década lembro da padaria Peg Pão, da Mercearia Cema, da lotérica Um Centavo, da casa dos ciganos, da minha escola, mas não consta em minha memória (qual memória?) qualquer estrofe em que havia uma lixeira no meio do caminho. No meio do caminho não havia uma lixeira, havia o chão, o bueiro, a boca de lobo.

Não é preciso ir muito longe. Anos 90 e lá vem Jô Soares em campanha informativa do Governo dizendo que jogar papel pela janela do carro passaria a dar multa - e finalizava dizendo "lembra do cinto de segurança como deu certo?", como se alertasse "essa lei aqui pode ser que pegue" neste país onde o maior risco não é o de pegar uma gripe suína, mas de vermos alguma lei pegar. Lixo do carro era a janela. Pronto. Dali pra frente, não era mais problema meu.

Copos e embalagens de isopor aos montes (lembra como era legal furar as do único Mc Donald´s do país, aquele da Paulista com a Joaquim Eugênio aqui em Sampa?), bitucas de cigarro, cascos de Coca Cola (tá bom, pode chamar de vasilhame) acumulando água no quintal e por vezes servindo de vaso, mangueirona lavando a calçada e fazendo a alegria da molecada aos domingos, escapamentos duplos, cusparradas e afins. Tudo isso é menos de 10% do que minha geração colaborou com a preservação do planeta. Reciclagem, Al Gore, sustentabili - o quê? e crédito de carbono (que só servia para deixar as mãos sujas e as cópias mal feitas) não fazem parte do meu vocabulário infantil ou adolescente.

E eis que viro pai. Esse cara aí, que estragou o planeta em conjunto, em ação involuntária, mas organizada. Ele vira pai.

Corte seco.

Dois anos atrás, meu filho então com seis anos, sentado na Saraiva do Shopping Morumbi. Entre um livro e outro, abre uma bala e fica com o papel nas mãos. Sai dos Simpsons, vai para o Potter, volta ao Homer. E o papel lá.

- Filho, por que você não joga o papel no cesto? Tá ali ó.

Resposta na fuça: 

- Mas não tem nenhuma lixeira azul...

Outra, pra finalizar:

Semana passada, foi escolher meu novo carro (sim, é ele quem manda em casa. Depois vêm minha mulher, o cachorro e, bom, deixa pra lá). Entrou, pulou nos bancos, abriu todos os compartimentos possíveis "aqui cabe o Ben10, neste aqui eu coloco minha coleção de Gogo´s...", enfim, adorou e bateu o martelo. É esse.

Paizão vai lá, senta com o vendedor e vê o moleque correndo aflito.

- Peraí! É a álcool?

- Não, filhão, esse só tem a gasolina.

- Esquece. Nós vamos poluir o planeta, usa petróleo.

O planeta, com certeza, passa para melhores mãos. Não achas?



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h59
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Dias sem mãe

Ele leva as mãos à cintura pela décima-terceira vez desde que cheguei. Levanta o trapo que serve de blusa, deixando à mostra o contorno de suas costelas visíveis abaixo da pele suja e escura. Gira em torno de si, mostrando aos olhares indiferentes por trás dos parabrisas que não está armado. Tem doze anos, desde os quatro vivendo na rua. Como, não sabe dizer. Por sinal, fala pouco, olha de lado, desconfiado, enquanto passa pelos carros parados no primeiro semáforo abaixo da ponte estaiada Octavio Frias de Oliveira, na avenida Roberto Marinho, zona Sul de São Paulo. Pergunto se sabe quem foram os nomes que batizam aquele lugar. O gesto é negativo com a cabeça. Batizado não é algo que possa significar algo a André. É tarde de sábado, véspera de dia das mães.

Saiu do Centro para a beira da Marginal Pinheiros há três anos, com um grupo de amigos. Acompanhou a construção do novo cartão postal da metrópole.

- Morreu muita gente aí. Teve um que foi esmagado na obra. A reportagem chegou geral. Tu é repórter, né?

Respondo com outra pergunta e ele explica o porquê:

- Quem chega aqui querendo saber nome, de onde é, como veio parar aqui ou é repórter ou quer encrenca. Tu não tem cara de encrenca, tá mais pra boy.

Fala sem me olhar. Os olhos fixam o semáforo. Para as frases no meio e volta à faixa de pedestres para o mesmo ritual. Levanta a blusa, gira, estende as mãos. Desta vez sai com vinte centavos. Olha as moedas sem expressão e as coloca no bolso de trás da bermuda que um dia foi cáqui.

- Família tenho não. Minha família taí, ó. Aponta para os dois cachorros, um meio manco que se aproxima como se soubesse a hora de entrar em cena. Doze anos. Não vê a irmã desde os oito, quando brigaram feio. Não diz o motivo, parece não ouvir a pergunta, mas deixa um semáforo vermelho passar. 

Um avião surge à esquerda e os olhos ensaiam uma nesga de brilho. É o tempo de levantar e abaixar a cabeça e o mesmo vazio está de volta.

- Sei de mãe não. Quem me criou foi minha irmã, na rua. Não lembro de casa, de pai, não lembro de nada. Nunca estudei. E pula do meio fio rapidamente, já levando as mãos à cintura. Não lembra, mas demonstra querer esquecer.

Pergunto se já foi ao Shopping Morumbi, a pouco mais de dois quarteirões dali, onde, àquela hora, o movimento de sacolas de filhos para mães parece incontável. Ele responde com um olhar de surpresa e vaticina.

- O que eu vou fazer lá? Ser expulso? Aqui é só nós, eu e os dois, que fazem a correria comigo, né Coto? E afaga o cão, tão de rua quanto ele. E é melhor tu sair desse canto aí que logo chega mais gente e não tô a fim de conversa não. Valeu pelos vintão aí, mas já deu. Esse papo de mãe tá rolando com a pessoa errada, tio.

Tio. O mais próximo que cheguei de uma família para André. Mãe, para ele, nem no céu do avião.



Escrito por Antonio Guerreiro às 00h20
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O negócio é chabadabadar

Tenho cinco janelas abertas ao mesmo tempo em meu browser. Uma planilha excel com oito tabelas repletas de gráficos, outra com um organograma que não para de crescer, a terceira com dois planos comerciais em pptx para aprovar, a quarta com o email e a última com uma análise de redes sociais. Ok, você nada tem a ver com isso, mas quando caio no Facebook nesta quinta janela e leio o mais recente post do mestre Xico Sá em seu perfil, pergunto quem está certo.

Xico Sá chabadabadá, chabadabadá, chabadabadá... um homem, uma mulher... chabadabadá, chabadabadá, chabadabadá...

Preciso responder?

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 15h29
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Troco meu cérebro por um HD

Prometi algo a mim mesmo quando iniciei este blog. Escreveria de memória, sem googlar nem recorrer a arquivos ou anotações prévias sobre o assunto que fosse. Meio que de acordo com o nome disso aqui: "Até onde sei...". Se sei, é porque guardei em algum canto entre estas milhares (bilhares, centenas, dezenas?) de sinapses constantes. E começou o inferno.

Abro o publicador, cursor na posição de sentido e quero comentar a reportagem sobre a possibilidade de apagar a memória que passou na TV dia desses. Mas onde? Em qual programa, canal, dia, hora, o que dizia? Lembro que citava "Brilho Eterno de uma mente sem lembranças", que lamentei não terem citado "Gattaca", mas tenho ideia zero do resto. O fato é que não preciso de um apagador de memórias. Meu cérebro cuida disso perfeitamente bem por mim (embora ele teime em achar que sou eu, mas isso já é outra discussão).

O que me revolta é não ter um HD acoplado. Poderia ser até externo, carrego numa mochila, fácil. Mais leve que o laptop que acaba com minha coluna - vértebras L5 e S1 que o digam. Com um HD a coisa ficaria decente. De que me vale lembrar o nome da diretora da minha escola primária? Dona Aglair de Burgos Pimentel, Deus a tenha diria minha mãe, está na boa há anos e eu mantenho o registro deste nome. 327696, primeiro telefone instalado em casa nos idos dos 70, inesquecível. Mas qual é mesmo o telefone da Camelo, onde peço pizza toda semana? O caminho do hotel até o bar em Kathmandu é logo ali, segunda à esquerda, primeira à direita e uns 50 metros de caminhada em frente. Estive lá pela última vez em outubro de 98. E erro todos os dias o caminho até a Barra Funda, por mais que a torre da Record esteja à minha vista, quase o tempo todo.

Não tenho ressentimentos com os quais não queira conviver, já arrumei lugarzinho bacana para os fantasmas do passado aqui dentro e um de meus principais divertimentos é frustrar minhas frustrações. Não quero um HD para substituir qualquer terapeuta, mas para localizar mais fácil os arquivos relevantes naquele minuto. É simples ou ao menos deveria ser. O Google já deveria ter lançado algo assim.

Talvez o que precise mesmo seja desfragmentar o disco C. Difícil é saber onde fica.



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h13
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ɐpuo ɐʌou

Não é problema técnico:

 

˙˙˙ɐɔuǝɹǝɟıp ɐʇınɯ ɐl zɐɟ oãu oɹıǝʇuı odɯǝʇ o ʞʞʞ ǝ ıʞɐ 'ɯɯnɐu ǝʌǝɹɔsǝ ǝnb ɐɹǝlɐƃ ɐɯn ɐɹɐd 'soɯɐɥuǝʌuoɔ 'sɐɯ 'sɐlnɔsnuıɯ ǝp sɐlnɔsnıɐɯ ɐıɔuǝɹǝɟıp oãu ɹosɹǝʌuoɔ o ˙s˙d /ʇǝu˙ʇxǝʇdılɟ˙uǝ˙ʍʍʍ//:dʇʇɥ ou oɔıʇɐɯoʇnɐ ǝ ¿ɹǝzɐɟ oɯoɔ ¿oãu ǝu 'oƃıpoɔ o ɹɐɥuɐdɯoɔɐ ɐɹɐd ɐɔıdɯılo ɐɔıʇsɐuıƃ no oɔɹıɔ ɯǝ oɯsıuoıɔɹoʇuoɔ ɹǝzɐɟ ǝʌǝp doʇdɐl ɐsn oãu ɯǝnb ˙oxıɐq ɐɹɐd ɐɔǝqɐɔ ǝp ˙ɯıssɐ ǝʌǝɹɔsǝ ɐɹoƃɐ 'snqıuo ou opɐl oɐ ɐɹɐɔ op lɐuɹoɾ ou oɥlo ǝp soɯɐʌɐɔıɟ sou oɯoɔ ǝʌǝɹɔsǝ ɯǝnb ǝp oɹqɯo op ɐɯıɔ ɹod ɹǝƃuǝssǝɯ opuɐʇoɥlıqsıq ǝãɯ ǝ ıɐd ɹǝnb oãu ǝnb ɐpɐɔǝloɯ ɐ ǝɹʇuǝ ǝʇuǝɔǝɹ sıɐɯ ɐıuɐɯ ɐ ˙ǝɾoɥ ɐʇsǝ ıɹqoɔsǝp



Escrito por Antonio Guerreiro às 00h49
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Por trás de toda Susan Boyle há um Simon Cowell

Sim, mais de 30 milhões de pessoas já assistiram ao video de Susan Boyle, a "senhora-pobre-e-virgem-que-mora-num-vilarejo-e-espanta-o-mundo-inteiro-com-seu-talento". Eu fui um deles e chorei também. Centímetros de revistas e jornais, pixels de telas foram gastos na tentativa de explicar o fenômeno e provar que Paulo Coelho está certo ao dizer que não podemos julgar um livro pela capa ou qualquer outra moral da história. Eu mesmo ensaiei post que só não publiquei porque achei que seria falar mais do mesmo. E aí vem o NY Post e pergunta: Por que ninguém desconfiou de Susan Boyle? Instigante.

Desconfiado por definição e profissão - a ponto de quando alguém me apresenta algo que ninguém nunca fez antes, minha primeira reação seja a de conjecturar o porquê disso, se é tão genial assim e somos 6 bilhões neste planeta - resolvi analisar os argumentos contrários ao conto de fadas. Primeiro o video no You Tube. Ideal para ser viralizado, com participação dos apresentadores do show e grand finale com Simon Cowell, dono do programa e estrela-mor (ainda há hífen aqui, Pasquale?) da atração (sim, é trecho recortado de como programa foi ao ar). A canção escolhida reproduz a vida miserável da candidata e o sonho que teve a vida inteira (I dreamed a dream). Não acreditar no talento de Susan é fechar os olhos ao óbvio, mas encarar sua participação na atração como espontânea ou ainda como algo ao qual Simon não teve conhecimento prévio e dirigido é subestimar o senso crítico. Mesmo que outro senso, o comum, prefira emocionar-se e acreditar em tudo como nos foi divulgado.

Mas seria tão belo quanto impossível.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 19h07
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Ele está chegando

Gay Talese confirmou sua vinda ao Brasil para a próxima Flip. Deve aproveitar a passagem para lançar "A Writer´s life" - que saiu por lá em 2006. Por enquanto, vale ler a crítica do NYT ao livro. E aproveite para deliciar-se com o arquivo do Times (à esquerda da página) mostrando como o jornal tratou os demais lançamentos do autor desde "O Reino e o Poder", sobre o próprio NYT, em 1969.

 

http://www.nytimes.com/2006/04/30/books/review/30andersen.html



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h12
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Os novos Caetanos

Até hoje só fiquei nervoso ao entrevistar duas pessoas. Em minha primeira entrevista como profissional, na Rádio Universal AM de Santos, o então menino de 16 anos teve pela frente Paulo Autran. Gaguejei, falei em soquinhos, tremi. Mas foi. Explicável a tensão, eu fazia teatro desde os 11, Autran sempre fora referência e eu havia acabado de sair embasbacado da plateia de Quadrante, que ele levava ao litoral paulista pela primeira vez.

A segunda, já mais experiente, na TV, com Caetano Veloso. Até hoje me pergunto o porquê. Algumas possibilidades:

Caetano não é mais um cantor, um ícone, o marco do Tropicalismo. Caetano virou Caetano, o oráculo. Não basta saber suas opiniões sobre a MPB atual, os novos talentos, os neo gêneros musicais. É preciso que Caetano disserte sobre Bin Laden, Obama, Guantanamo, Corinthians, Física Quântica, Literatura Portuguesa, Corinthians e Pastéis de Feira (assim, em caixa alta e baixa mesmo, para dar o mesmo peso dos demais). Parece que algo só acontece quando Caetano a reconhece. Ou a detona. Mas repetir algo assim só serve para embrulhar peixe, todo mundo sabe.

Naquele dia, o da entrevista, eram tantos os repórteres em volta e só eu querendo saber sobre o show. Foi no estacionamento do antigo Palace (que muda de nome a cada semana, não sei mais o atual). Ousei perguntar algo do espetáculo e ele - em um olhar clodoviliano - me fitou e respondeu ensaiando um sorriso de lado. Os demais donos de microfone me olharam como se eu tivesse acabado de pousar de bicicleta com o ET do Spielberg. Enfim, não é esta a razão deste post, mas sim falar dos novos Caetanos, os gurus do mundo virtual.

Os twitteros (ou seriam twitteiros?) mais famosos arrastam seus discípulos por páginas e páginas, quase sempre em reply direto de alguma mensagem/bate papo/entrevista. E pode checar. Disponibilizam desde tutoriais tecnológicos a manuais de autoajuda para cuidar de filhos ou animais de estimação enquanto indicam um ou outro livro de Capote como leitura obrigatória naquele restaurante chiquérrimo que foram na semana passada. E tome link. Tudo ao mesmo tempo agora. 

Na era da informação sem limites, não são apenas as fontes de informação que pululam. Os oráculos proliferam-se ainda mais.

Falar nisso, alguém aí tem o twitter do Caetano?

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 10h21
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Online

Muito espaço
Mais de 7316.424904 megabytes (e esse número vai aumentar) de armazenamento grátis. Você nunca mais vai precisar excluir outra mensagem.

É isso o que leio ao acessar a tela inicial do Gmail, o email do Google, para criar minha segunda conta. A primeira lotou. Contrariando as orientações, apaguei mensagens, denunciei spams, limpei a lixeira. Necas, não cabe mais coisa alguma. Começo a pensar em como ficaria a minha vida se um dia alguém no Vale do Silício desligar o interruptor por engano.

 




Escrito por Antonio Guerreiro às 21h15
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Véspera de terremoto

Deixei a Itália exatamente na véspera do terremoto. Com fuso de cinco horas ainda na cabeça, começo a achar que foi no próprio dia da tragédia. O que sei é que meu celular não parou de tocar desde a manhã de segunda,  já no Brasil, com preocupações infinitas e uma única dúvida: você ainda está na Itália?

Não, mas amigos e parentes de amigos, sim. Gente que perdeu casa, família, esperança, tudo. De certo modo, parte de mim continua lá.



Escrito por Antonio Guerreiro às 14h06
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Velhas novas informações inúteis de Roma

- A iluminação noturna do Coliseu está ainda mais linda.

- Faz frio (4 a 5 graus, mas há sol).

- O túmulo de João Paulo II continua sendo o mais visitado e iluminado das tumbas da basílica de São Pedro (ok, sem contar São Pedro).

- As ruas estão limpíssimas.

- O trânsito está insuportável.

- Os sorvetes da Piazza Navona continuam os melhores (ao lado da mais bela Embaixada do Brasil no mundo).

- Um suco de laranja custa 22 reais e um almoço para uma pessoa, cerca de 100.

- O ônibus 81 nunca passa.

- O 64 passa o tempo todo.

- Pedi a mesma informação a seis romanos e obtive seis respostas diferentes.

- A exposição de Darwin está aqui.

A cidade continua eterna. 



Escrito por Antonio Guerreiro às 12h45
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Quase

Bons textos servem para inspirar, respirar, transpirar, pirar. Remexendo na caixa de email, achei este, do Veríssimo.

 

Ainda pior que a convicção do não e a incerteza do talvez é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo o que poderia ter sido e não foi. Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou. Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.

Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna;ou melhor, não me pergunto, contesto. A resposta eu sei decór, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "bom dia", quase que sussurrados. Sobra covardia e falta coragem até para ser feliz. A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai. talvez esses fossem bons motivos para decidir entre alegria e a dor, sentir o nada, mas não são. Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco íris em tons de cinza.

O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si. Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance; para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência, porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer. Pros erros, há perdão;pros fracassos, chance;pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.

Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino e acredite em você. Gaste  mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h24
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Indo para Roma

Embarco amanhã para Roma. A trabalho, com agenda lotada, sem força de expressão, das 6h30 às 23h por mais de 10 dias. E há quem diga que isso não é trabalho, é diversão.

Mas que agenda lotada em Roma é melhor que agenda vazia em São Paulo, é, ainda que a minha teime em continuar cheia em qualquer lugar. Concordas?



Escrito por Antonio Guerreiro às 19h17
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Trabalhar com Clodovil

Meu primeiro contato com Clodovil Hernandes foi via fone, mas a conversa foi ouvida por milhares de pessoas, ao vivo, no Mulheres, da TV Gazeta. Creio estar em 2000 ou 2001. Em determinado momento, enquanto eu o inquiria sobre isso ou aquilo veio a primeira de suas diretas impagáveis: "vem cá, meu querido, eu não te conheço, quem é você? E por que se mexe tanto na cadeira enquanto fala comigo?". Em meu ouvido, no ponto eletrônico, a voz da diretora contemporizava "calma, Guerreiro, não vai na dele que ele é assim mesmo, é ótimo". Duas semanas depois já era meu companheiro no quadro de apresentadores do programa.

Chegou para a primeira reunião impecavelmente vestido, com seu secretário particular. Croqui, alguns lápis e surgia, assim, em poucos minutos, o novo cenário da atração. Dois telefonemas e os móveis do ambiente de estúdio podiam ser trocados, mediante acordo comercial a ser tratado com algum amigo seu. O camarim ficou mais belo, a produção mais requintada e nada disso em demérito do que existia anteriormente. Apenas porque ele estava ali e era, como sempre fora, a figura central.

Lembro de acompanhar o tal relógio do Ibope em minha sala subindo 3 pontos (240 mil telespectadores, em média) em poucos minutos, com a câmera mostrando simplesmente o traço do apresentador em um croqui, rabiscando um vestido de noiva para uma telespectadora pendurada ao fone. Isso, enquanto Clo cantava, a capela, La vie en rose. Nos bastidores tinha a fama de exigente, por vezes injusto. Mas creio que as principais injustiças Clodovil cometia contra ele mesmo. Algo me dizia que quando Clô chegava a um grau de estabilidade punha tudo a perder, como na lendária entrevista com Galisteu após a morte de Senna, nos ataques a Band, nas brigas com Christina Rocha, nos recados aos donos da Rede TV!. Precisava deste quê de fênix para se reinventar a cada projeto sem, contudo, deixar de ser - sempre, sempre - ele mesmo.

Dois momentos marcam minha história com Clodovil. Um, em dia pra lá de agitado na produção de meu programa quando uma pauta caiu em cima da hora (um convidado cancelou a participação e não tínhamos mais matérias, reportagens gravadas na gaveta), ele virou-se de bate pronto e perguntou, lembrando nosso primeiro contato via fone: "mas por que você está tão nervoso?". Ao ouvir a resposta, pediu para que eu preparasse minha equipe e me recebeu, na manhã seguinte para uma entrevista exclusiva dada na calçada em frente a seu apartamento, no Ibirapuera. Foi a primeira vez que abriu as portas de sua casa paulistana a uma equipe de TV. Em um passo, era como estar em Paris. 

O segundo, uma festa de Natal para todos os apresentadores da emissora e consequente gravação de especial com amigo secreto, no apartamento de Ione Borges. Ao sortear o papel de quem seria o destinário de meu presente, tirei seu nome, menti qualquer coisa (creio que disse ter tirado a mim mesmo) e busquei outro. Isso ilustra bem nossa relação. Sempre admirei Clodovil, sua verve, sua inteligência, mas, principalmente, seu carisma. Gostando-se ou não dele, era impossível não parar o controle remoto por alguns segundos que fosse quando era Clô que aparecia na tela (mesmo fazendo cara feia, vendia mais que qualquer outro em merchandisings). Mas trabalhar com Clodovil era uma mistura de sentimentos, ataques gratuitos, implicâncias injustificadas e um certo temor. Ou respeito. O respeito que fez com que devolvesse o papel e perdesse o amigo secreto e ganhasse um bom colega declarado.

Nosso último encontro já foi neste ambiente web. Eu, diretor de portal, e ele, participante de chat. Amável, afável, imprevisível. Fica na lembrança mais uma de suas sacadas ao ouvir a respiração da estagiária que tentava passar as perguntas dos internautas, via fone, ao novo deputado do país:

- Minha filha, mas você está me entrevistando ou tendo um orgasmo?

 O céu está bem mais interessante a partir de hoje.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 18h11
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Como (não) fazer uma entrevista

Não deu para segurar. Sarah Oliveira entrevistando Grazi Massafera no Video Show sobre o último capítulo de Negócio da China, novela global. 

Pergunta 1: Último capítulo, ai, muita emoção, né?

Pergunta 2: E você acha que o balanço foi positivo? 

(aqui, obviamente, a protagonista da novela diria: "não, achei horrível, foi péssimo, o Miguel Falabella (autor) não sabe escrever, o Ibope foi trágico, odeio o Projac...")

Pergunta 3: (era sobre o sotaque)...na verdade não teve pergunta, foi mais um testemunho da Sarah falando que o sotaque foi assim um "super ganho" pra atriz, sabe como é?

Nem eu.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 14h06
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Ser Ronaldo ou não, eis a questão

Eu não mereço o título de corintiano (haveria o "h" aqui, corinthiano?). Ontem, da cozinha de casa, bebendo água ouvi o Cléber Machado dizer que um certo Fabinho Capixaba estava com a bola, mas confesso que não sabia (e ainda não sei) se o rapaz veste branco ou verde quando em campo. O fato é que desde criança, em Santos, sempre me disse torcedor da equipe do Parque São Jorge. Não lembro de ter ido sequer a um jogo do Corinthians, mas se a maioria era santista, soy contra. Creio que se todos fossem corinthianos (agora com h), torceria pelo São Paulo ou algo assim. Distúrbio de personalidade, sem dúvida.

O fato é que hoje somos todos Ronaldo. Todos - de acordo com a Folha, até palmeirenses aplaudiram de pé o gol do craque. Sei. O que sei também é que meu filho, de 8 anos, que sempre teve pelo futebol a mesma paixão que carrega por um bom prato de jiló gritou e correu pela sala ao gol de Ronaldo. Isso porque diz torcer pelo Santos.

E ainda sentenciou ao pai que corria com a caneca cheia de água em direção a sala:

- Você nunca pode abandonar o seu time, nunca. Nem nos momentos finais.

É que ele não conhece o Felipe no gol.

 

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 17h24
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Harry Potter: novo trailer

Nunca chega perto do que é o livro, mas ainda assim, é bom:

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 13h22
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Bial abre o jogo sobre BBB e Globo

Belo trabalho do Stycer, vale o clique:

http://tinyurl.com/bodd7u

 


 



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h56
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A imparcialidade do jornalismo esportivo

Fora do ar é uma maravilha, né não? Só para constar, esses "profissioinais" e "torce" vieram escritos por quem postou o vídeo. Não tenho como mudar... 

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 11h44
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Deveria ser a vida real, David, antes fosse...

O pai leva o filho ao dentista. O profissional aplica a anestesia e o moleque sai de lá chapado. O resultado? Um dos vídeos mais assistidos atualmente no You Tube. "Isso é a vida real?", pergunta o garoto a certa altura. Não David, infelizmente não e não vai durar para sempre, mas seria muito mais fácil se fosse e durasse. Ah, seria...

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 11h55
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Oasis by Songsmith. Quê???

Não faço parte da turma que acha que Bill Gates é o demo travestido de geek. Curto o Windows e tudo o que sei de Linux é que tem um pinguim que o meu filho adora como símbolo. Ponto. Embora digite neste momento via Chrome ( e adore), meu navegador padrão é o Explorer. Tenho Iphone, mas não Mac, gosto pacas do Jobs, mas meu negócio é Word para PC. Uso o Messenger e acho a Microsoft uma empresa bacana. Antes de tentar bater em mim, deixe que termine: não dá pra engolir esse Songsmith. Nunca ouviu falar? Perdeu nada.

Algum engenheiro-técnico-nerd inventou um troço que "revolucionaria o modo de fazermos música". A-hã. Basta você cantar no microfone do seu computador e o incrível, super, hiper, mega, blaster programa faz o acompanhamento para sua música. Como é? Isso mesmo que você ouviu, traz o microfone que a gente garante o resto da banda.

Além de ter virado gozação total na rede com um comercial tosco feito pelos próprios criadores da coisa para promovê-la (eles dizem que isso hoje em dia é sucesso, ser visto e ridicularizado por milhões, deve ser), o Songsmith é capaz de aberrações como esta. Com vocês, Wonderwall, do Oasis, by Songsmith:

 




Escrito por Antonio Guerreiro às 21h03
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Eu amo releases

Não é de hoje que se repete que jornalismo é a arte de separar o joio do trigo e publicar o joio. Em celebridades então, nem se fala. Se tem algo que realmente me fascina é a capacidade de determinados assessores de imprensa tentarem promover suas pseudo celebridades, da maneira que for. E tome-lhe "ator mirim que interpreta o personagem tal na novela xis da Band comemora aniversário no Hopi Hari", "modelo y passa dia em spa (modelo quem???)" e tantos outros releases que lotam a caixa postal destes escribas dedicados a postar novas sobre os famosos.

Este blogueiro sazonal, que ainda é do tempo em que primeiro uma pessoa virava artista para depois ser famosa (hoje, antes fica famosa e depois tenta virar artista), adora colecionar estas pequenas grandes tentativas de profissionais em tornar fato relevante o que de fato sequer é. Hoje recebi um ótimo.

Segue, sem qualquer correção:

Presidente dos EUA , faz coreografia de cantores mirins do Brasil Rafaela e Maury
 
Conforme o Fantástico anunciou, a dança do Obama presidente dos EUA, está uma febre total em todo mundo....Onde o mundo inteira adotou a coreografia que ele faz nas festas presidenciais.
 
Mas dessa vez não foi os EUA que chegou na frente com essa dança, e sim o Brasil, pois temos uma dupla infantil que já tem esse estilo de dança.....que são Rafaela e Maury com a música Bonga Bonga..conforme clipe abaixo.
 
Ou presidente do EUA, adotou a dança da Rafaela e Maury, ou ele é da onda Bonga Bonga....Falta ele ter mais umas aulinhas com as crianças brasileiras para se profissionalizar....

SENSACIONAL!!!!! Barack Obama deu um tempinho na análise do conflito em Gaza, pediu alguns minutos ao povo esganiçado de Wall Street e disse "vou até o salão oval assistir ao dvd da Rafaela e ...(como é mesmo?) ...Maury!" .  Não vou colocar o vídeo aqui, mas como o release indicava o link, segue abaixo, afinal, creio ser este o objetivo do assessor que, sem dúvida, é brasileiro e não desiste nunca.

Bonga Bonga – Clip
http://www.youtube.com/watch?v=OK5A5icCKjs
 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h39
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Por que ter um blog?

Ensaio este post antes mesmo deste blog existir porque a pergunta do título tem a ver com a gênese deste espaço. Afinal, por que as pessoas têm e mantém um blog? "Até onde sei" foi criado como um blog sobre o nada muito provavelmente porque não achei a resposta a esta pergunta até o dia da estréia. E ela (a tal da resposta) continua perdida por aí, em algum canto onde a larguei, se é que algum dia ela realmente esteve comigo.

Dou um passeio frequente aqui pela blogosfera e vejo o que é publicado. Muitos diários, "hoje fiz isso, ontem li aquilo", fotos de uma pseudo intimidade pública, muita autopromoção (ou seria auto-promoção, Pasquale?), por vezes uma correria para noticiar algo em busca de exposição que nem sempre vem e poucos que, na opinião deste escriba cada dia mais descrente de tudo e todos neste mundo de hits, param em pé. Xico, Tas, Rosana, Forasta...

Leio os emails que recebo aqui ou no Estrelando, do qual também sou sócio, e me cobram mais histórias sobre a TV, bastidores, quais são "meus planos" e coisas afins. Talvez seja por isso que fico alguns dias sem postar, porque não vejo utilidade nas histórias de bastidores, embora as conte vez ou outra e planos, ora, quisera eu saber quais são os meus. Deixo todos os planos secretos para as modelos/atrizes/manequins que vão aos programas de TV sem poder revelá-los ainda, mas que o apresentador, seja ele qual for, será o primeiro a saber quando puder ser dito. Risível.

Uso o blog, esta é a verdade. É meu consultório virtual, meu cyber divã. Exorcizo sei lá o quê por aqui e sigo em frente, ainda que andando torto. Em posts banais ou profundos, escrevo para mim, mas uso um espaço público, pagando meu imposto em banda larga. Ego? Talvez, mas está mais perto de regurgitação que de vaidade pessoal.

Deve ser este o porquê de ter um blog. É um excelente canto para vomitar.



Escrito por Antonio Guerreiro às 00h42
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Britney canta Inri Cristo

Foi em 95 ou 96, não sei ao certo, mas o Eduardo Marini, então na Istoé, chegou para mim e disse, sem pestanejar: encontrei Jesus Cristo vivendo nos rincões do Brasil. Desde a reportagem de Marini até hoje, Inri Cristo já participou de quase todos os programas de TV que conheço, de Descontrole (quando Mion quis crucificá-lo, literalmente) a Pânico, passando por alguns que eu mesmo tive o prazer de comandar. Lembro de várias entrevistas com a figura, mantendo a tênue atitude do quase-rir. Mas com o vídeo abaixo, já sucesso no You Tube, vinguei todas as gargalhadas contidas por força profissional.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h38
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Sobre os fogos em Copacabana

Virei 2009 (ainda não sei para qual lado) em alto-mar (depois dessa maledeta reforma ortográfica não sei mais o que tem ou não hífen. Levei meus 20 anos de profissão para mal aprender a escrever devidamente, levarei outros tantos vinte para reformar tudo, enquanto isso, vou de hífen). Mas recebia, via boletim, por baixo da porta da cabine um pequeno informativo-resumo das notícias no mundo. E leio lá, com fonte citada: Estadão. "Rio terá mesma quantidade de fotos, apesar da crise".

Em suma, o que dizia o sumário: os patrocinadores seguraram a verba para Copa, mas o senhor Medina, da RioTur, afirmava que a qualidade e quantidade dos fogos seria (como de fato parece ter sido) mantida. O segredo? "Tivemos que diversificar os fornecedores para que o custo caísse e tudo pudesse ficar igual, com menos dinheiro" - não foi exatamente com estas palavras, mas o sentido era o mesmo.

A pergunta que nem o Medina respondeu tampouco o Estadão fez é a óbvia:

- E por que não diversificaram os fornecedores antes da crise se qualidade e quantidade são as mesmas, gastando menos?

É só a primeira de 2009. Ou a última de 2008. Tanto faz.

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 14h22
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Faltou dizer que saí

Este blog volta hoje a ser atualizado. Pronto, avisado. Faltou avisar o que disse no título aí em cima.

Leitura de férias: Um homem chamado Maria, de Joaquim Ferreira dos Santos, sobre o injustiçadamente esquecido cronista, compositor, amante, jornalista, diretor de rádio e TV, Antonio Maria. Devorado em 2 dias. O livro, não o Maria (este as mulheres devoravam em poucos minutos de papo).



Escrito por Antonio Guerreiro às 14h15
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A vida, por Charles Chaplin

Certa feita, Chico Anysio (para este escriba senão o melhor, um dos melhores atores que já vi) interpretou este texto em seu extinto (!!!) quadro no Fantástico, nos idos dos 80. Vale neste e em qualquer final de ano, nem que seja apenas por lembrança, para aqueles que já o conhecem:

 

A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. 

Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara para a faculdade.

Você vai para colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando. E termina tudo com um ótimo orgasmo! Não seria perfeito?



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h30
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Tapa de Canuto não dói

Conheço Márcio Canuto do modo como as chamadas "pessoas de TV" (sempre preferi "garotos de programa de TV") se conhecem. Do nada.

Um dia, gravando no viaduto do chá, não lembro se pela Gazeta ou Band ouço um "Guerreiro, meu filho!", naquela voz rouca que seria impossível não reconhecer. E lá vem o homem, que nunca havia me visto mais gordo ou magro pessoalmente, me abraçar e me tirar do chão, com seus mais de dois metros de altura. Me puxou, balançou, chacoalhou, disse que me assistia e sorria, o tempo todo.

Encontrei Canuto inúmeras outras vezes em diferentes cenários e a recepção foi sempre a mesma. Calorosa. Nordestina, original e autêntica. Agora, vejo a grita geral porque o repórter teria dado um tapa na cara de um entrevistado que falou um palavrão ao vivo, durante um entrada no SPTV. Primeiro: já vi Márcio Canuto empurrar autoridade, puxar pelo braço prefeito, sacudir vereador e balançar o povo em meio a informação de qualidade misturada a entretenimento e performance das boas. Segundo: o cara está ali, ao vivo, na vera e tem a reação típica de quem fala a verdade e age como tal. Terceiro: não foi tapa. Esse é o modo Canuto de ser.

E, por último, posso garantir: mesmo que chamem de tapa, o de Canuto não dói. Experiência própria.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 02h21
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Ronronar

Tô me divertindo com essa idéia de passear pelos blogs aqui do UOL. Não sei até quando eles vão deixar ou manter minha página por aqui, mas até lá...

Cara, a Ângela Ro Ro tem um blog. Sim, é exatamente isso que você ouviu: a Ângela (acho que o Angela dela não tem acento, mas o meu aqui vai ter) tem um blog. Ok, vai, pode estranhar meu estranhamento, mas por mais que a Ângela seja vanguarda, tenha tocado em temas polêmicos a vida toda sem dó nem dela muito menos dos outros, a mulher ter um blog me espantou. Preconceito no sentido exato da palavra, sem negativismo, só pré-conceituar sobre algo. E, para mim, este algo é: Ângela Ro Ro não combinava com blog.

Ro Ro combina com fossa das boas, Bar Brahma, choradeira bêbada na madrugada, Old Eight, Natu Nobilis, Xico Sá e seu impagável, inimitável e todos os outros áveis Carapuceiro . Mas não com esse tilintar de teclado frio, usualmente na madruga que nós, escribas-jornalistas-blogueiros-donos de casas de palpites usamos como confessionário virtual, espécie de cyber divã. Ro Ro se confessa ali, no balcão, ou, mais ainda, cantando em um palco pequeno para quem chora ao barman. Ou ao garçom, como manda o velho Reginaldo.

Não, Ro Ro, nada contra, mas você não combina com blog. Coloca alguém pra escrever procê e vai cantar, sejam as meninas ou as músicas, não importa. Vamos ficar encantados do mesmo jeito.

A propósito, taí o blog da Ângela. Pode chover reclamação, não tem problema.



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h23
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Desenvolvi

Tentei segurar, mas não rolou. A galera do UOL Blog que me desculpe, mas com todo o respeito que o grande (deve ser grande, não o conheço) Sandro Bosco merece, fiquei felizão ao ver a chamada "Desenvolva seu tônus abdominal". Opa, comigo mesmo. Até porque ando mesmo a fins de checar se ainda há um abdômen aqui embaixo de tanta...tanta...tanta, como é que eu defino isso aqui? Tanta protuberância naquilo que um dia eu chamei de barriga. Mais ou menos isso. Mais para mais do que para menos. Muito mais, mais mesmo.

Clicão na hora. Pô, vou desenvolver, ficar saradão, verão chegando, praia com a esposa e filho sem camisa. Não vai dar pra rolar sungão vermelho no Leblon como diria o Boechat, mas quem sabe uma bermudinha sem constrangimento? E aí é que ficou tudo constrangido por aqui. Ô Sandro, na boa, na vera, na melhor das intenções, até curti o nome da posição, apesar da cãibra na língua por meia hora: UBHAYA PADANGUSTHASANA. Bacanuda. Mas, me explica, só pra eu desenvolver direito. A pose é essa?

Pelo jeito é mesmo. Fiquei feliz em saber que previne a hérnia e as dores nas costas, embora já as tenha comigo há alguns anos. Mas valeu o desenvolvimento. Já coloquei na minha listinha de ano novo conseguir chegar a esta posição. Tá aqui ó, pregado na geladeira como meta para 2020. Eu chego lá, meu tônus abdominal que me aguarde.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h50
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Não vale

Acabo de ler na home do UOL que a bebedeira esporádica também pode causar derrame cerebral. Peralá, amigo, vamos com calma. Porcentagem significativa da mesma home é formada por más notícias sobre a economia global, tragédia em Santa Catarina, e até um certo karaokê com música do Bruno e Marrone. E eu nem posso encher a cara de vez em quando que corro o risco de vegetar pelo resto da vida? Aí já não é nem injusto, é desumano.

Lembro do tal doutor bactéria, hoje famoso pelo Fantástico em uma entrevista a este escriba na TV Gazeta, tentando provar que os ovos, por ficarem na porta das geladeiras, estragam mais facilmente. Não resisti e emendei: então, o que o senhor está dizendo é que todos os fabricantes de refrigeradores no mundo estão errados e o senhor está certo, é isso?

Alguém gritou algo no ponto em meu ouvido, com certeza um "calma, alivia pro cara", mas não deu. Tem coisas que são como bebida ruim. Não descem mesmo. As boas, descem. Com derrame e tudo.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h49
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Vou ser astrólogo

Pronto, decidi. Chega dessa vida de jornalista, de viver adestrando letras, formando palavras e reformando idéias, cansei, em 2009, serei astrólogo. Eu explico.

Sou o cético menos engajado ao ceticismo que já conheci. Adoro acreditar em algo. Três pulos com o pé direito nas sete primeiras ondas do ano? Lá estou eu, segurando a bronca de tanto sangue no meu sistema alcóolico, equilibrando o corpo tal Saci. Arruda na carteira traz dinheiro? A minha amarela, esfarela, mas continua firme e forte estragando a tarja magnética dos cartões de crédito até dezembro. São Longuinho, Yemanjá, Buda, sendo divindade, eu tô dentro. Mas tem algo que não desce. Chama-se astrologia. Talvez pelo fato de logo em meu primeiro emprego, numa rádio em Santos, meu então chefe tenha dito de chofre:

- Senta aí nessa máquina e escreve o horóscopo de hoje, moleque.

16 anos. Minha idade na época. Em dois meses já bateria o João Bidu. Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, o que viesse eu mandava ver. Amor, saúde, dinheiro. Ontem tava mal para Escorpião, hoje vou dar uma aliviada. Aquele alguém que você tanto espera está próximo, dia de cuidar das finanças, esta é a melhor época para tirar aquele sonho que você guarda há anos na gaveta. Festival de frases feitas. Líder de audiência nas tardes de sábado nos idos do final dos 80.

É daquela época uma blague que repito até hoje. Quando alguém levanta a sobrancelha e me olha de lado, sei que vem a pergunta fatal:

- Qual é o seu signo?

Respondo sempre o primeiro que vem à cabeça, menos o meu, de fato. A resposta é invariável:

- Sabia! Você tem tudo de...(Áries, Touro, Sagitário, Capricórnio, dependendo do dia).

Sou de Gêmeos. Ao menos, é o que dizem de quem nasceu em 10 de junho. Aproveitando este final de ano, resolvi reler as previsões que foram feitas aos que, como eu, carregam o fardo de serem dois, embora nunca tenha encontrado este tal irmão gêmeo quando preciso de algum favor. Vamos a melhor delas:

"Para os geminianos, 2008 será de muita comunicação e entendimento. O mês de abril será o melhor período para se ter uma boa conversa, que exigirá de você muita energia mental com seu parceiro. Será um dos melhores períodos do ano para colocar em ordem relacionamentos antigos. O ano novo traz muita agitação e você terá que ter paciência e inteligência para lidar com a situação. "

 

Sensacional. Virei fã da astróloga. 2008 será de comunicação e entendimento. 100 em cada 100 pessoas que falam de Gêmeos dizem ser o signo da comunicação, logo...mas também será do entendimento. Ah, tá...entendi. Pronto, primeira frase foi.

Confesso que não lembro quantas, mas, com certeza, tive inúmeras boas conversas no mês de abril de 2008. Como em novembro de 2005, setembro de 2004 e agosto de 96. Mas esta, em especial, a de abril exigiu deste mero escriba muita energia mental com meu parceiro, parceira, no caso. Tenho que perguntar à parte interessada, mas não lembro de ter necessitado de tanta energia mental assim, afinal a tal pilulazinha azul faz milagres hoje em dia. Enfim, vamos em frente.

Tive o melhor período do ano para colocar em ordem relacionamentos antigos e desperdicei. Não encontrei minha professora da segunda série primária para pedir desculpas a ela por ter colado chiclete na carteira da Aninha, que sentava à minha frente. Isso me persegue até hoje. Nem a professora, tampouco a Aninha passaram por mim em abril. Quem sabe foi em maio e não percebi?

Mas a pérola-mor vem agora: o ano novo traz muita agitação. De fato. Estranhei, porque como moro em São Paulo, esperava calmaria. E tive que ter paciência e inteligência para lidar com a situação.

Paciência para ler o horóscopo e inteligência para decidir virar astrólogo no ano que vem.

Feliz 2009 procê. Quer que eu faça alguma previsão?



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h09
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Bossa Nova by meu filho

Tenho o estranho costume de conversar com o meu filho. Mas conversa mesmo, sobre tudo. De eleição americana a jazz, blues, física, literatura, o que vem na cabeça a gente papeia em via de duas mãos. Ele com seus 7 anos bem vividos e eu com os meus não tão bem assim, 36. Dia desses, entusiasmado pelo livro do André Midani, comecei a explicar a ele o que era (e é) a Bossa Nova. E toma-lhe Tom Jobim, João Gilberto, Vinícius e Roberto Menescal. Ele ouviu tudinho, batucou nas músicas, cantarolou O Pato e, ao final, veio com a pergunta definitiva.

- Mas, Papi, do Tom Jobim e dos outros eu entendi, mas o que fazia mesmo esse "Coberto de Nescau"???

Menescal adoraria, com certeza...

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 21h20
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Volta, Avallone (Exclamação!)

De vez em quando eu ia lá, de fininho, cumprimentando um jogador aqui, outro acolá e pronto! Chegava ao estúdio do Mesa Redonda Futebol Debate, na Gazeta. Minha sala no prédio da Fundação Cásper Líbero ficava no sétimo andar e os estúdios no oitavo, portanto, eram apenas alguns degraus, mas a ida era sempre tensa. Ia encontrar o mito em ação. Tudo bem que quase diariamente ele passava pela minha sala e gritava "Giro do Guerreiro" (o nome de meu programa), apenas isso, ao que eu, respeitosamente devolvia com um "Meeeestre". E pronto, esse era nosso contato máximo. Uma ou outra conversinha sobre o Palmeiras, a seleção, o Corinthians, enquanto o elevador não chegava já era luxo.

Mas ficar nos bastidores do programa assistindo a uma enciclopédia ambulante escalar de bate pronto a seleção da república tcheca na copa de mil novecentos e trinta e sei lá o quê, dizendo a quantos minutos de jogo o Tchaburasdhashfdhsdydiwaakshakevsky (ou sei lá qual o nome do cidadão) levou um cartão amarelo não é para muitos, nem para poucos. É para três, dois, um.

E o um estava ali com seu cabelo acaju (nunca chequei se é o mesmo tom usado pelo Silvio), à minha frente, mandando o dicionário completo de acentuações da língua portuguesa: exclamação, vírgula, interrogação, vírgula, ponto. Não creio que minhas visitas secretas e sempre caladas tenham contribuído para, mas o fato é que, após vários anos, ele deixou o programa. Aprendi, com o tempo em TV, que as decisões tomadas pelas direções nunca são claras à primeira vista, ao menos para quem é atingido por elas, mas depois você encontra lá sua razão. Meio mulher de malandro, que sabe porque está apanhando, mesmo que ele não saiba porque está batendo.

Depois fomos os dois para a Band, ele primeiro, e estava lá para me cumprimentar quando cheguei "Giro do Guerreiro, exclamação, seja bem vindo". Quando voltei para a Gazeta, ele passou pela Rede TV (ou aqui embaralho as datas e ordens, mas pouco importa). O fato é que na semana passada, acordei com o Avallone à minha porta. Estava deitado, sobre o capacho, em forma de anúncio da Rádio Capital, informando, cheio de exclamações que ele agora pode ser ouvido por lá. Confesso que não o escutei ainda, embora ainda ouça, por diversas vezes de mim mesmo, a melhor história sobre Roberto Avallone (dois prêmios Esso) que já tive oportunidade de saber.

Um grande anunciante da emissora almoçava com ele quando houve um daqueles hiatos comuns a qualquer conversa. Aquele momento em que, após minutos de diálogo, um apenas olha para o outro e leva o garfo à boca. Mestre Avallone não é homem de hiatos. Ao sentir o silêncio crescer, esbugalhou os olhos e declamou, para deleite do cliente:

- "Então: reticências..."

 

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 21h04
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Veja onde Obama vai morar e trabalhar

Um tour por dentro da Casa Branca, tendo como guia....George W. Bush. É melhor que CQC e Pânico juntos:

http://www.whitehouse.gov/history/life/video/index.html



Escrito por Antonio Guerreiro às 14h04
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Dúvida

A resposta não é comigo, mas sim com a Band. Quem daria mais audiência, a nova atração de Cicarelli ou reprises do CQC que estará em férias no início do ano, cedendo lugar a atração de Cica?

Escrito por Antonio Guerreiro às 13h59
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Hill e Bill

- Wiiiiiiiiiiilliam!!!

- Xi...se chamou de William é porque lá vem.

- Lá vem, não. Já veio. Chegou, William. Acabei de receber do motoboy, tá aqui, ó.

- O que é isso?

- Como assim o que é isso. William? É aquilo que a equipe daquele lá ficou de mandar.

- Aquele lá?

- Não me faça dizer o nome daquele lá. Você sabe muito bem de quem eu estou falando. Já não chega na campanha que eu tinha que ficar repetindo a todo instante "Senador Obama isso, Senador Obama aquilo". Não me faça ter que chamá-lo de presidente. Não aqui em casa!

- Hill, querida, vem cá...

- Tira essa mão de mim e me ajuda logo com essa papelada. Onde já se viu tamanha falta de consideração, de respeito de...de...de...sei lá o quê Como essa gentinha se atreve a enviar um questionário com mais de 60 páginas para que eu, EU, EUUUUU responda quem sou, quem fui, o que faço. Olha essa aqui: você ou seu cônjuge têm algo que não poderiam ou não gostariam de tornar público??? Rá rá rá! Preciso responder a essa, William, heim? Wiiiiiiiiiilliam, cadê você, homem?

- Tô aqui, só fui fazer xixi, nem isso posso mais?

- E ainda tem aquela Michelle. Ela vai ficar na minha sala, na MINHA!!!! EU ocupei aquela sala de 93 a 2001, William. EU!

- Mas agora ia ser a minha sala, não é para a primeira dama?

- E desde quando você seria primeira dama, ô traste! Você é ex. Ex-presidente. E dê-se por feliz que não é ex-marido também! Onde é que eu encontro uma caneta que funcione?

- A sala da primeira dama fica bem na frente do salão oval, lembra?

- ........................................

- Que foi?

- ........................................

- Que cara é essa, Hill?

- BEM NA FRENTE DO SALÃO OVAL????? BEM NA MINHA FRENTE, SEU SEM VERGONHA, ACHA QUE EU ESQUECI, É?

- Peralá, peralá, calma, amigo...amigo....

- E as meninas deles ainda vão estudar na mesma escola da Chelsea. Até nisso eles nos imitam, William, até nisso!

- Mas é que as opções são...

- Cala essa boca e vem aqui. Vamos lá. Também, se depois dessa humilhação toda ele não me convidar para ser Secretária de Estado, eu juro que...

- Secretária de Estado? Como assim? E minha Fundação? Tenho negócios no exterior, isso pode ser conflitante.

- Conflitante??? Vem aqui que você vai ver o que é conflito!

- Calma, Hill, você tomou seu tranquilizante hoje? Tá ali no armário ao lado do modelo da cédula eleitoral...

- NÃO FALA EM ELEIÇÃO!!!!!!

- Ok, amigo....amigo....

- Diz logo quem são os benfeitores da Fundação. Pega lá os recibos que você guarda. Por falar nisso, você nunca sequer me mostrou, não é William?

- O que?

- O que o que?

- Os recibos!

- Que recibos? Aiiiiii!!! Esse sapato dói. Mas como vou expor ao público dados tão particulares?

- Ô meu filho! Você já expôs coisas muuuuuito mais particulares e dentro do salão oval. NA FRENTE DA MINHA SALA. Pega agora os recibos!

- Tá bom, tá bom. Pronto, tão aqui.

- Deixe eu ver. Humpf, esse aqui não quis doar um centavo pra MINHA campanha, mas pra sua Fundação sempre tem um dinheirinho, muito bom saber, vai pro meu bloquinho negro. Esse aqui ok, este outro vá lá, esta aqui....esta aqui...esta...

- WIIILLIAM!!!!!!!!!!!

- Oi, que foi agora?

- Quem-é-essa-tal-de-Monica-que-todos-os-meses-doa-uns-dólares-para-a-Fundação????????????????

- Mo..mo..mo..nica?

- E POR QUE O RECIBO ESTÁ MANCHADO?????? QUE MANCHA É ESSA? WIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIILLIAMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!

- Xi, sujou.



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h31
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Querer

José Hernandes tem 63 anos, pêlos por demais saindo de seus ouvidos e uma calma não condizente com a profissão que exerce há 40 anos. É taxista em Buenos Aires, Argentina. Enquanto troca de faixa sem ligar o pisca, dispara suas verdades ao passageiro sem piscar. Os Kirshner querem ser eternos, Cristina quer ser Evita, Maradona quer e pode ser Deus, os americanos não querem mais saber de viajar, Obama quer ser o comandante do mundo e resolver tudo de uma única vez e enquanto checo se meu destino fica mais próximo ou perdeu-se em meio a tamanha profusão de opiniões pergunto, afinal, o que ele e não os Kirshner, Maradona e demais, mas o que ele, José, quer após seis décadas de vida.

Ele respira fundo, joga um ponto morto ao ver o semáforo vermelho. Batuca os dedos no volante gasto de seu Fiat 2001, arrisca uma olhadela para trás em minha direção e franzindo a testa enrugada, diz:

- Eu quero não ter que pensar na minha vida. Olha para a frente, vê o verde, engata a primeira e acelera a falar, agora sobre a situação dos pedágios urbanos, do que querem o alcaide, os ministros, os passageiros, o mundo.

Sabedoria portenha. E quem quer ter que pensar na própria vida?



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h54
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Não morreu

Quanto a mim, ainda não sei, mas o blog permanece vivo. Culpa da Argentina, fui exportado para lá e só voltei hoje. Prometo post para logo mais (como se fosse mudar alguma coisa, eita presunção...)



Escrito por Antonio Guerreiro às 15h03
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São Paulo morreu. Alguém pode avisar?

Dez minutos de fila para conseguir sair da garagem do prédio onde se mora. Uma hora e meia para percorrer, de carro, um trajeto de 13km. Fila de 20 minutos para conseguir estacionar o veículo. É impossível dizer bom dia a quem quer que seja.

São Paulo morreu. Só esqueceram de avisar.



Escrito por Antonio Guerreiro às 10h27
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A Fantástica Fábrica de Celebridades

Desculpe, mas é mais forte do que eu. Após alguns dias de retiro voluntário encravado em meio a montanhas, sem saber o que é sequer uma conexão dial up, volto e mergulho nesta fantástica fábrica de celebridades chamada internet. E o convite aos blogs dos famosos, dos caráveis (sim, eles são mais que colunáveis, eles saem em Caras) é a prova de que tudo continua como antes no país em que até não muito tempo atrás, para ser famoso era preciso ser artista. Hoje em dia (até a expressão já virou revista eletrônica cheinha de celebridades), primeiro vira-se famoso, depois, torna-se artista. Ou algo que o valha.

Aqui deveriam vir pérolas dos blogs, mas desisti. Na verdade, enjoei. Muito açucar neste mundinho de Willy Wonka.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h30
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Star Wars

No dia em que o Império não contra atacou, vi a primeira transmissão Jedi da história da TV, na CNN. Acredite, é holografia:



Escrito por Antonio Guerreiro às 12h21
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Desenhos e rabiscos

Sua informação mais preciosa, guardada entre as folhas de um velho livro ilustrado que ainda mantinha em seu quarto. Um pedaço de papel, quase um rasgo, rabiscado com letra cursiva tremida, suada, aprendiz: Silvia. O nome, o bem sagrado, o mantra.

Morava exatamente à sua frente. Não, isso de casa do outro lado da rua soava por demais impessoal. Morava à sua frente, ainda que a cada dia mais dentro dele. Passavam seus tempos bobeando na janela. Ela olhando o irmão jogar bola, ele observando as nuances do rosto, dos cabelos. Pequenos ensaios de sorrisos, grandes expectativas. Cruzavam os olhares apenas por acaso, quando ela preparava-se para fechar as cortinas. E era neste fio de olhar, usualmente sem expressão definida que ele depositava seus desejos, suas vontades, sua idéia de que o dia valera a pena.

Em dois anos, nunca se falaram.

Hoje encontra em um livro não ilustrado uma folha de papel sulfite com o desenho daquela casa. Sabe que hoje há um prédio no local, as janelas multiplicaram-se, outras Silvias devem ter o mesmo CEP. Pouco importa, a janela interior estará sempre esperando a cortina abrir novamente. O rabisco e o desenho atestam e dão fé.


 



Escrito por Antonio Guerreiro às 00h42
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Obama for kids

Pra quem já assistiu a "As pistas de Blue", é quase lá:




Escrito por Antonio Guerreiro às 21h22
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Ao menos na Vila...

Não sei se alivia o ódio que estamos do Glock, mas na Vila Belmiro, a quase 100 km de Interlagos, o Massa foi campeão:

É...

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 16h56
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Sim, você quer ser a Paris Hilton

Que não me perdoem os engravatados do Centro, os pastinhas da Paulista e os apressados do Brooklin, mas não considero lógica a lógica do trabalho. Não tentem me convencer que alguém, após oito a dez horas examinando planilhas de Excel possa chegar em casa, abraçar mulher e filho e dizer "tive um ótimo dia, Papai está tão feliz...". Não, Papai não está feliz. Papai está de saco cheio mesmo, não aguenta mais ver o chefe gordo dando em cima da secretária que joga charme, não tolera as piadas repetidas à exaustão pelo Carlos Alberto, o colega de trabalho com gel e perfume da Droga Raia, que se acha o máximo, as cobranças, as contas a fazer a cada dia 1, 5 ou 30.

O fato é que viemos ao mundo a passeio. Todos nós. O problema é que Deus só nos deu o ingresso. Necas de dinheiro pra pipoca, Coca Cola e chiclete. E é disso que gostamos. Nessa grande família chamada sociedade, neguinho não quer ser Lineu, quer mesmo é ter a vida do Nanini.



Escrito por Antonio Guerreiro às 00h27
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Dia 4 é dia de votar

Meu melhor amigo é meu filho. Com ele discuto de Pokemon a Literatura Portuguesa, de Física Quântica a Ben 10. Pra mim é mero detalhe, mas ele tem 7 anos.

Primeiro turno da eleição municipal deste ano. Como em todo pleito, desde que passou a andar sem tropeçar e cair, é ele quem vai comigo para apertar os botões. E vai lá, decorando o número. Antes, no caminho, falamos do candidato escolhido (ou candidata, pra não dizer aqui que entreguei o voto - que dizem ser secreto, mas o meu foi de Alckmin), de sua história, da importância de votar, de quantos morreram para que a gente tivesse direito de pressionar aquelas teclas e ouvir o barulhinho. Nada chato, nem pra ele, ao que parece. Manda uma enxurrada de perguntas.

- Por que a Marta não foi boa?
- Por que o Kassab tem aquela cabeça grande? É igual àquela que aparece no boneco?
- Por que chama Zona o lugar de votar (essa, pelo duplo sentido, acho que vai entender um pouco mais à frente).
- Por que tá demorando pra chegar?
- Por que a Mami não vota aqui também?
- O que é domicíio eleitoral?
- Já pensou se o Kirby (personagem da Nintendo) fosse candidato?

Chega a hora. Ele entrega meu título, me vê assinar a folha e vamos a cabine. Lá dentro uma última pergunta:

- Mas, Papi, e como é que eu faço pra votar no Obama?

Escrito por Antonio Guerreiro às 10h02
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Saudades do NP

Lembrou os bons tempos de Ricardo Valladares e Álvaro Pereira Junior no Notícias Populares...

 

 

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 12h36
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Ele blogou

Isso é o que ele diz dele mesmo:

André Forastieri é jornalista desde 1988, editor desde 1990 e emprendedor desde 1993.

Começou sua carreira na Folha de S. Paulo em 1988, onde trabalhou como repórter da Ilustrada e editor do Folhateen. Na Ilustrada escrevia principalmente sobre música e cinema e iniciou a primeira coluna regular sobre quadrinhos em um grande jornal brasileiro.

Em 1990 deixou a Folha para assumir o cargo de redator-chefe da revista Bizz, e posteriormente da revista SET, ambas da editora Azul.

Em 1993 deixou a Azul para iniciar sua carreira de empreendedor com a editora Acme. O primeiro lançamento foi o da revista General, dedicada ao público jovem. Em 1994 veio a revista Herói, sobre o mundo dos quadrinhos, séries, cinema e animação. Grande sucesso de vendas, a marca Herói é hoje um dos mais importantes sites brasileiros sobre estes assuntos, Heroi.com.br, com mais de 300 mil usuários únicos mensais.

A partir de 1998, como co-fundador, sócio e diretor editorial da editora Conrad, Forastieri colaborou para a criação de uma empresa de comunicação bem diferente – muito ousada em seu catálogo de livros, dedicado a novas idéias e autores, e muito bem sucedida no segmento jovem, com revistas, quadrinhos e colecionáveis.

Em 1998, a Conrad trouxe ao Brasil a revista oficial da Nintendo, a mais importante empresa do segmento de videogames. A revista Nintendo World continua ativa até hoje. A ela se seguiram outros títulos do segmento de games, como EGM Brasil e Superdicas Playstation. E a revista PLAY, que durou apenas um ano, mas marcou época como a primeira publicação brasileira dedicada à comunidade brasileira de internautas.

Em 1999, a Conrad lançou no Brasil os primeiros mangás publicados ao estilo japonês. Começando com a febre Pokémon, o segmento logo ganhou outros títulos de sucesso como Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, Evangelion e Vagabond.

A partir de 1999, a Conrad começou a publicação de uma linha premiada de quadrinhos, que garantiu a vitória durante quatro anos consecutivos como “Melhor Editora de Quadrinhos” no HQ Mix, o principal prêmio dos quadrinhos.

Entre os autores de quadrinhos publicados pela Conrad estão Robert Crumb, Joe Sacco, Neil Gaiman, Osamu Tezuka, Charles Schultz. Entre os autores nacionais, Marcatti, Allan Sieber, Marcello Gaú e Jô de Oliveira.

O catálogo da Conrad também é interessante for a do segmento de quadrinhos, com autores como Charles Bukowski, Terry Pratchett, Hunter S. Thompson, Guy Debord e a Coleção Baderna, dedicada ao novo pensamento de esquerda. Entre os brasileiros, Clarah Overbuck, Cláudia Assef, Fernando Bonassi, Gonçalo Junior e Paulo Henrique Amorim.

Em 2005 André Forastieri deixou a Conrad e iniciou novos negócios, sempre na área de jornalismo e cultura.

Em 2006 lançou em parceria com a jornalista Erika Palomino a revista KEY, especializada em moda.

Também em 2006, fundou a editora Pixel Media, especializada em quadrinhos, em sociedade com a Ediouro, uma das maiores editoras brasileiras.

Entre janeiro de 2006 e fevereiro de 2008, quando Forastieri deixou a sociedade, a Pixel construiu um catálogo importante, com autores como Milo Manara, Guido Crepax e Alan Moore, e obras como Sandman, 100 Balas e Corto Maltese. Entre os nacionais, Flávio Colin, Wander Antunes, Gustavo Machado e Paulo Borges.

Durante este período, Forastieri serviu como Diretor Editorial, responsável pelo desenvolvimento do catálogo, negociação de direitos, relacionamento com autores e supervisão da qualidade editorial.

Desde agosto de 2007, Forastieri exerce a função de diretor editorial da Tambor Gestão de Negócios Ltda, empresa especializada em tecnologia e games, dirigindo as revistas PC Magazine, Nintendo World e EGM Brasil, e os sites heroi.com.br, pcmag.com.br, nintendoworld.com.br, smk2.com.br e MSN Jogos.

Como jornalista, Forastieri vem colaborando regularmente com veículos diversos desde o início de sua carreira, incluindo artigos para Folha de S. Paulo, Época, Playboy, VIP, UM – Universo Masculino e outros, além de uma longa passagem como colunista da revista Caros Amigos. Hoje, mantém uma coluna mensal na revista Meio & Mensagem.

Forastieri foi um dos fundadores do programa de rádio Garagem, em parceria com André Barcinski, Álvaro Pereira Jr. e Paulo Cesar Martin. O programa, especializado em rock alternativo, durou de 1991 a 2005.

Em outubro de 2008, Forastieri inicia o blog andreforastieri.com.br.

Nas horas vagas, o autor namora e cria seu filho, Tomás.

Agora, o que eu digo:

Forasta é daqueles caras (pra usar só termos dele) bacana pacas, com textos parrudos e idéias geniais. Além de tudo, é amigo (isso deve depor contra) e uma usina de criação em formato de gente. Só durante a leitura destas três linhas aqui ele teve 28931637272524754875474857547357453287548345814778345375437543785438725423 idéias. Prontinhas para entrar em prática. Eu tive só uma: falar procê entrar lá (difícil vai ser sair): andreforastieri.com.br

Salve Dom Forasta, bem vindo.

Escrito por Antonio Guerreiro às 22h07
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Da gringa

Vi no blog do Sérgio Dávila. Muito bom. Você assistiu ao "Wassup", corruptela de What´s up, comercial feito pela Budweiser (agora meio brasileira)? Caso não tenha visto, segue o original e a versão pós-crise e pró-Obama. Vale.

Original:



Nova Versão:








Escrito por Antonio Guerreiro às 13h54
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Solitária

A verdade é que nunca soube ao certo quando ou onde começou a se perder. Vivia em uma espécie de cela solitária interior, contando os dias com pequenos arranhões na parede da alma, riscando cada amanhecer como uma nova dor a ser vivida, sofrida, incorporada, embutida. Pequenos flashes cotidianos vindos de um sorriso de filho, de um carinho de mulher faziam as vezes de portinhola por onde a luz difusa penetrava por poucos segundos naquele universo lúgubre.

Nunca soube e continua sem saber onde tamanho torpor teve início, mas sabia ser aquele o estado da realidade, sem as máscaras, amarras de pseudo satisfação, sem os tratos das convenções sociais. Naquele corpo escuro podia ser o monstro que o habitava. Há tempos não acreditava mais no que pudesse dar certo e quando sentia a possibilidade de algo assim existir, dava mais espaço às entranhas, mergulhava em sua insignificância gritante.

Nunca soube ao certo quando ou onde tudo terminou. Mas sabia que este novo começo não tinha fim.

Escrito por Antonio Guerreiro às 22h37
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Diário de Bordo 2 de hoje:

Novo trailer de Harry Potter 6:


Diário de Bordo

Matéria de Geneton (nunca sei se tem um n ou t a mais, só o Google e ele) Moraes Neto no Fantástico de ontem:




Escrito por Antonio Guerreiro às 11h13
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O Colecionador

Era meu vizinho e adorava papel. Não, adorava é pouco. Amava papel, fosse qual fosse, colecionava todos, das mais diversas cores e tipos, com apenas uma restrição a papel higiênico usado, pelo simples motivo de ainda não ter conseguido angariar fundos para comprar um armário com vedação de odor. Mas estava lá anotado em sua wish list, quando pudesse, incorporaria o conteúdo da lixeirinha do banheiro à coleção.

Por sinal, lixeiras eram o seu principal local de coleta. Reclamava, vivia dizendo que não entendia como as pessoas podiam jogar tanto papel fora. será que não entendiam que todo papel tinha sua história, seu próprio histórico e conteúdo (o que queria dizer com isso nunca entendi direito, mas...) e que eles (os papéis) não poderiam ser desprezados assim, só porque alguém havia escrito tudo o que quisesse sobre os pobre coitados. Papel merece respeito, não cansava de repetir.

Certa feita juntou todas as suas economias, abandonou a mulher e mudou-se, carregando suas toneladas de papéis para um armazém abandonado no centro da cidade. Cheguei a visitá-lo e lá estava o cara com uma caminha, travesseiro e só. Ao seu lado (todos os lados), montes de papéis, das mais diversas formas. Sim, porque não colecionava apenas papéis escritos ou com algo impresso. Qualquer objeto feito de papel era arrematado para a coleção, por isso viam-se junto a revistas usadas e papeizinhos de anotação amassados e triturados, centenas de pipas de papel, devidamente sem as varetas de madeira, milhares de copos descartáveis de papel (lembra que eles existiam?), caixas de papelão e o que mais pudesse abastecer aquele que deduzo ter sido o verdadeiro paraíso das baratas no planeta.

Dizem que ele até tentou convencer as indústrias papeleiras a transferir seus estoques para o tal armazém, ao menos conseguiu marcar uma audiência com a recepcionista do prédio onde funcionava uma destas empresas. Já é um tanto, não sei o porquê de não ter dado certo. Conto isso porque ontem fui ao Centro de São Paulo (no sempre belo e cada vez mais acolhedor Mosteiro de São Bento) e, por um erro de percurso (ok, assumo, falando ao celular, viva voz, mas ao telefone) passei em frente ao local onde ficava o dito armazém. Ficava. Atualmente funciona por lá uma empresa que vende casas pré fabricadas. Por ironia, todas de madeira, sem sombra de qualquer papel.

Sobre meu ex-vizinho, acabei de saber que morreu no reveillon passado, tragicamente, atropelado por um carro enquanto tentava capturar, no meio de uma avenida, os pedacinhos de papel picado que caíam dos prédios do Centro, em festa coletiva pela passagem de ano.

Descanse em paz.

Escrito por Antonio Guerreiro às 13h04
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Mestre

Àqueles que, como este mero escriba, respiram as obras de Talese, Capote, Wolfe, Breslin e tantos outros do novo - sempre será novo - jornalismo, uma aula do principal representante que o gênero já criou neste lado do hemisfério (ele, provavelmente, detestaria esta definição, mas...). Para os que nunca o leram, Marcos Faerman (sobre o amigo Faerman falarei em outro post) em uma das antológicas reportagens para o Jornal da Tarde. Aprecie sem qualquer moderação:

As palavras aprisionadas


O repórter e sua perplexidade. O repórter tem diante de si a realidade. A realidade é a natureza e os outros homens. Como entender o mundo que nos rodeia? Como entender os conflitos, as mentiras aparentes, as verdades ocultas? Que instrumentos usar na hora da revelação?
Saindo da abstração. O repórter tem diante de si a realidade. A realidade pode ser um homem encolhido à beira de um rio. O repórter é um ser em disponibilidade. Esta é quase que sua essência. Ele está à disposição dos 'chefes', do jornal em que trabalha. Cumpre horários, ordens. Num dia qualquer, uma hora qualquer é mandado para um lugar qualquer. É sempre assim. Ele poderá ter diante de si este homem ajoelhado no barro, olhando para um rio. O repórter olha para este homem. Procura saber sua história. A reportagem pedida: a vida de uma aldeia à beira de um rio corroído pelo mercúrio que mata os peixes que alimentam os homens.

O repórter e sua perplexidade. O repórter recebe ordens. O repórter diante da pauta. Os problemas de um Estado diante da poluição. O que dizem as autoridades. O que diz o povo. O que dizem os industriais. As técnicas do repórter? O papel, a caneta Bic, o gravador. Os olhares das pessoas para ele ¬ como o olhar daquele homem ajoelhado à beira do rio, não dá para esquecer. Um homem de roupas rasgadas, um pescador, que me fala com uma linguagem confusa como o vento que bate na água. Uma canoa parada no rio e uma rede. O olhar do repórter que cai em suas mãos. Mãos cortadas pelo barro.
Os direitos do repórter e do jornal. A lembrança, diante daquele homem, das perguntas de um outro repórter, das inquietações de outro repórter diante de outra realidade. Parece-me curioso, para não dizer obsceno e totalmente aterrorizante que pudesse ocorrer a um grupo de seres humanos reunidos através da necessidade e do acaso, e por lucro, numa empresa, num órgão jornalístico, intrometer-se intimamente nas vidas de um indefeso e arruinado grupo de seres humanos, uma ignorante e abandonada família rural, com o propósito de exigir a nudez, a humilhação e a inferioridade destas vidas, em nome da ciência, do 'jornalismo honesto', da humanidade e do destemor.
Saindo da abstração. O repórter em busca da realidade. Com a sua sensibilidade. Com a sua insensibilidade. Em nome de uma empresa jornalística. Ouvindo histórias das vidas dos outros. Sugando dos outros a única coisa que eles têm, além do corpo nu: uma história, a sua vida, a sua perplexidade, as suas próprias dúvidas e pequenas verdades (e separa grande medo). E o que ele ouviu que era 'jornalismo'. E uma linguagem que lhe disseram que era jornalística. Como esta linguagem que lhe disseram ser 'jornalística' se adequa aos olhos e às mãos daquele homem à beira do rio?
As lembranças do repórter. 'Tudo isto me parece curioso, obsceno, aterrorizante', disse certa vez um repórter. James Agee, de quem fiz a citação anterior. James Agee. Um repórter. Era um garoto quando a Life lhe pediu a história de algumas famílias rurais na época da Depressão dos EUA, de onde nasceu uma espantosa reportagem, Louvemos Agora os Grandes Homens. A Life rejeitou a reportagem de Agee por considerá-la anti-jornalística. Agee descrevia com minúcias até a respiração do pesado sono de trabalhador. Construiu um documento eterno. Seu relato é obra à altura de Steinbeck, John dos Passos, Faulkner. Quem quiser saber alguma coisa sobre a vida camponesa nos anos 30 terá que ler este relato que a Life rejeitou. O relato seria publicado na forma de livro. Trinta anos depois seria editado numa coleção de Antropologia dirigida por Lévi Strauss. Da rejeição em nome do jornalismo para a glória (as famílias camponesas assassinadas em nome do jornalismo renasceram!).

O repórter e sua formação. Todas estas idéias nascendo na cabeça do repórter a partir da questão da Linguagem da imprensa. A certeza que o repórter tem de que muitos colegas ainda têm na cabeça o mito do texto jornalístico e do texto anti-jornalístico. A certeza de que em nome do jornalismo muitos colegas rejeitariam o texto de Agee e muitos outros textos. A questão do 'texto objetivo'. A pergunta: que texto é esse? Onde nascem e com quem a técnica jornalística ensinada pelo que é publicado nos jornais e revistas, e pelas 'Escolas de Comunicação'. Onde nasceram e como as idéias de objetividade e neutralidade? Uma resposta possível: este texto jornalístico, esta linguagem fluente nos jornais surge com a estruturação da imprensa em forma de empresa/imprensa; empresas ligadas diretamente a determinada forma de organização da sociedade, o capitalismo. A linguagem da imprensa norte-americana se disseminando pelo mundo. A expansão de um Império e das idéias que o justificam.

Ainda a formação do repórter. A linguagem oficial da imprensa é defendida por muitos jornalistas. Ou não discutida. Ela é implantada nos jornais por jornalistas. Os Vigilantes do Texto. Às vezes, os Policiais do Texto. Uma arma na mão, a caneta. O direito que ganham de modificar o texto. O texto nasce do olhar do repórter sobre a realidade. Mas um olhar que não baixou para a realidade pode modificar as palavras. A defesa de uma linguagem. O esquecimento de que a 'linguagem vem sempre de algum lugar'. De que a linguagem está sempre referida a uma classe social, a um grupo humano. E de que há uma linguagem do poder, como há uma linguagem de crítica ao poder. O quanto pode a linguagem do poder ser disseminada pela realidade toda, preenchendo até a linguagem dos sonhos, até se tornar uma linguagem aparentemente neutra e objetiva? (Barthes. Barthes. Barthes.) A linguagem do poder alcançando até o espaço último do senso comum. Pensar em tudo isto. E ainda analisar a forma como esta linguagem se confunde com a expressão jornalística.
Saindo da abstração. O retorno ao rio, àquele homem. A responsabilidade diante dele, daquele momento. A necessidade: saber ouvir, saber descrever. A linguagem pode chegar ao real? (Discussões: o que é o real, etc.) O jargão Jornalístico/Economicista/Sociologuês/ pode captar esta realidade? Mas é aquele homem que devemos descrever, não uma abstração! Será que é ser "literato" abrir meu mundo para aquele homem, absorver a sua realidade, a sua linguagem - achar as palavras certas para revelá-lo? E uma outra idéia: a relação entre as palavras que surgem da máquina de escrever, e aquele homem.

Ficção e realidade. Algumas idéias, a partir de James Agee. Numa novela, uma casa ou uma pessoa tem seu significado, sua existência, inteiramente a partir do escritor. No jornalismo, uma casa ou pessoa tem apenas o mais limitado dos seus significados através do repórter. Seu verdadeiro significado é muito maior. O personagem existe num ser concreto, como você e eu. 'Seu grande mistério, peso e dignidade estão neste fato'. Outra questão: o jornalismo é James Agee, García Márquez, Eduardo Galeano, Heródoto, René Chateaubriand, Norman Mailer, Euclides da Cunha ¬ eis os nomes de alguns repórteres. O jornalismo de Agee é menos literário do que a sua ficção? O jornalismo de Norman Mailer é menos literário do que sua ficção? O jornalismo é um método: trabalha como instrumento de descoberta de uma realidade, com formas próprias, anotações, pesquisa. Outra idéia: o pensamento escolástico contemporâneo, os intelectuais de gabinete, o pensamento universitário preservando a Arte e a Literatura com Maiúsculas. Esquecendo ¬ em nome do Elitismo ¬ o sentido mais contemporâneo do conceito de Escrita. Uma última idéia: muito da melhor literatura brasileira desta década vai ser descoberta (quando???) em alguns jornais e algumas revistas (por quem???).
Manifesto de libertação da palavra. A busca de uma realidade exige uma linguagem capaz de captá-la. Esta linguagem não é uma fuga (tese dos populistas chulos, contra os revolucionários chucros). É o único caminho para nos levar à débil captação de uma sociedade e de suas contradições. E da única coisa que interessa: o ser humano sufocado em sua vontade de ser.

Por Marcos Faerman
Texto extraído do livro Com as mãos sujas de sangue, 1979.
(Global Editora)



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h53
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Enfim

Naquele início de manhã, olhando pelo vidro sujo de poluição ela encarou a mesma cena cotidiana. A fila de carros parados, ambulantes circulando entre eles, buscando movimentar o orçamento familiar em meio àquele cenário de quase completa imobilidade. O clipe de papel em sua mão já estava torto, mas ela fez questão de entortá-lo ainda mais. Talvez assim, disforme, dissesse mais do que o papel que iria segurar. O computador ficou ligado na mesa. O celular na gaveta.

Saiu sem falar. Atravessou a recepção, chegou ao elevador, não levantou os olhos, e desceu no térreo. O carro ficara na garagem. Tomou um táxi e passou a fazer parte da massa que, até então, observava. Foram minutos, provavelmente muitos, ela não saberia dizer e chegou ao destino. Pagou, não conferiu o troco, sacou seu cartão de crédito, encostou-se no balcão e solicitou a passagem. Não, não havia bagagem. Sim, apenas ida.

A sala de embarque, o lugar na janela, as nuvens. Não aceitou o serviço de bordo. Foram horas, provavelmente não muitas, mas ela não se importou. Outro táxi, cartão de crédito, mais um balcão, não, não havia bagagem. Sim, viera só. A areia chegava quase à porta do chalé. Entrou, deixou a porta aberta, tirou os sapatos, livrou-se da bolsa, abriu a geladeira em busca de algo alcoólico, sentou-se na cama e olhou o mar pela janela. Despiu-se.

Em frente ao espelho parecia reencontrar alguém que não via há anos, com certeza muitos e ela sabia dizer quantos. Molhou os cabelos, vestiu a mesma lingerie de algodão e saiu caminhando até o ponto em que seus pés ficaram sob a água verde e salgada. O fim de tarde, a baixa temporada, o sol à sua frente, tudo fazia com que dois ou três casais pouco ou nada reparassem nela. Deitou-se sentindo o gelo de uma água pura, em contraste com o calor e impureza que lhe impregnavam cada vez mais.

O céu com seus tons avermelhados, o corpo moldando a areia, a água agora morna, a garrafa na mão. Não pensou nele em qualquer momento. Nem neles. Eles todos. Estariam, àquela hora, sob as nuvens cinzas de uma cidade negra.

Com os cabelos tocando seu corpo molhado, sentou-se para ver o anoitecer. A brisa mais intensa fez sua pele arrepiar-se. Atrás de si, o chalé com a porta ainda aberta, as luzes no canto do hotel e 34 anos de rotina. Caminhou lentamente de volta, empurrou a porta com os pés, deitou-se encharcada, abriu outra garrafa e, enfim, sorriu enquanto caíam suas primeiras lágrimas sinceras.



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h27
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Minha menina

Creio que ela tivesse cinco, no máximo seis anos quando tudo começou. Nossa história teve início da maneira que as grandes histórias começam, por acaso, com nada ou quase nada premeditado. Eu, um jovem rapaz, apoiado no muro, olhando o nada com a despreocupação típica da idade e ela caminhando, em frente ao mesmo muro, sempre de passagem, com mãos dadas sem muita vontade à babá, procurando deixar claro a todos que estava ali apenas por obrigação.

Até hoje não sei o porquê dela ter reparado em mim. Talvez por isso ou aquilo, mas o fato é que uma voz tenra chegou até o muro na forma de um prosaico "oi". Ainda sem me dar conta da ternura naquela fonte emissora, respondi educadamente e lá se foi um "olá". Concordo que não o suficiente, mas assim foi o primeiro dia, simples e encantador. Outros viriam.

Na semana que seguia, a troca foi continuada. "Ois" e "olás" se repetiam enquanto cediam espaço a mais simpatia, a, ouso dizer, empatia. Um jogo continuado de olhares sinceros, sorrisos e monossílabos balbuciados pelos dois. A babá, provavelmente por não prestar mesmo a atenção devida, sorria aqui e ali, um dia ou outro, mas seguia em frente, passo forte, mão segura, indiferente àquela virada de pescoço e sorriso nascente que faziam meu dia. E assim seguimos, dia a dia, mês a mês, quase sem palavras, mas dizendo muito mais um ao outro do que poderíamos supor.

E foi assim que a pequena desapareceu. Da mesma maneira que surgira. Custei a acreditar que nosso pacto monossilábico tivesse sido quebrado, tentei encontrá-la em voltas pelo quarteirão, mas os muros eram todos diferentes onde quer que eu passasse. Antes de resignar-me, tentei encontrar razões, mas por que elas deveriam existir? Não há nexo na mágica de um olhar, por mais que procuremos. E assim o muro envelheceu junto com este agora não tão jovem rapaz. Sozinhos, sem o olhar cúmplice, sem a renovação diária de esperança, sem o sentido daquele olhar. E não sao poucas as vezes em que, ainda hoje, ao ligar a televisão ou perder-me em meio a multidões busco entre tantas imagens aquela que ficou guardada, a da tenra pureza infantil.

Os que me escutam dizem que ela cresceu. Só não sabem o quanto dela ainda cresce dentro de mim.



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h17
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Papo de Economista

- Esse negócio de bolsa só dá certo é com mulher.

Pronto, foi assim já concluindo que Eustáquio entrou no elevador do prédio onde moro (escapei da mania de grandeza de dizer "meu" prédio), com a vassoura na mão e cara de poucos - se é que algum - amigos. É auxiliar de serviços gerais do condomínio.

- Bom dia, Eustáquio.

- É o que eu falo, seu Guerreiro, esse negócio de bolsa não é pra homem não. Veja lá o senhor, os cabra tudo barbado chorando nas foto dos jornal, que coisa feia, num é?

- É que...

- Dá uma licencinha que eu vou aproveitar e passar um paninho aqui nesse espelho senão a Dona Érica já vai brigar comigo, mas o senhor não concorda? Eu ouço esse rádio aqui que meu filho me deu de aniversário, ele diz que toca umas outras coisa aí, uns tal de mp sei lá o quê, mas ouço mesmo é a Bandeirante, se bem que aqui no prédio deve de ter algum pobrema de interferênça, que às vezes sai um chiado só. Mas quando vou buscar os jornal lá embaixo, fico vendo as foto. Tudo triste por causa da tal da bolsa.

- Olá, bom dia, como vão, tudo bem Eustáquio?

- Oi Dona Judith, então, seu Guerreiro vê se pode uma disgracêra dessas? Pra que qui põe dinheiro em bolsa? É ou num é, Dona Judith? Olha aí, até a senhora, que é mulher, tá saindo sem bolsa. Só com a carteira na mão. Ô Dona Judith, não leva carteira na mão não que esse bairro tá cada dia mais perigoso, outro dia mesmo pegaram um menino que tava...

- Bom dia.

- Eita que isso aqui vai lotar. É por causa do horário, não é? Tirando a Dona Judith aqui que vai comprar pão, vocês vão tudo pro trabalho, né? Pronde é, pros lado da Paulista? Se for, é melhor evitar a marginal, a Bandeirante falou aqui que tá tudo parado, mas agora não ouço mais nada, tô achando que é o elevador. Rádio num pega no elevador, né?

- Até logo, Eustáquio.

- Tchau, Dona Judith, mas por que a senhora num desce na garagem que já sai no nívi da rua? Qualquer dia essa mulher vai acabar caindo nessas escadaria do térreo.

- Bom dia.

- Esse aí só diz bom dia e olhe lá, seu Guerreiro. Viu quando ele entrou? Só falou "bom dia". Agora aqui no 1S também só "bom dia". Eu gosto é de cabra que nem o senhor que conversa, que fala o que pensa, dialoga que nem agora, né? Que troca as idéia com nós.

- Bom, Eustáquio...

- Eita, 2S já, é o seu. Mas é isso aí, seu Guerreiro, não leva bolsa não, fica só com essa mochila que o senhor carrega aí que já tá bom. É pro computadô, né? Vai lá pro SBT agora? Ou vai pra Gazeta?

Coloca o fone no ouvido e apesar de estar no segundo subsolo e sintonizar uma rádio de notícias, sai assobiando, com a mão no bolso, com "o", no masculino, sempre livre de flutuações.

Escrito por Antonio Guerreiro às 22h01
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Moradores do Campus

Era a metade de um homem cheirando a formol sustentando uma pele esbranquiçada, pegajosa e úmida. Os cabelos, já metade caídos, escorriam pelo rostos e chegavam até os dentes apodrecidos. Não falava, mas mantinha os olhos abertos e seu rosto trazia uma expressão de vazio e dor que em nada lembrava paz. Chegava cada vez mais perto quando o sergipano José Humberto Santos acordou sobressaltado, suando. O relógio de cabeceira marcava 3h40.

Duas horas depois, Humberto, como é chamado pelos colegas e família, caminhava sozinho pelo andar intermediário do prédio da Universidade São Judas Tadeu, na Mooca. O molho de chaves e seus passos proporcionavam o único ruído significativo naquele corredor ainda escuro, que só iria se iluminar 20 minutos mais tarde, quando Humberto já estivesse dentro da sala I06C, na extremidade esquerda do andar, preparando o material para a primeira aula do dia no Laboratório de Anatomia Humana da Universidade.

De segunda a sexta-feira passam pelos bancos do laboratório alunos de Nutrição, Farmácia, Fisioterapia, Educação Física, Biologia e Psicologia. Apesar da mensagem de respeito aos corpos pregada na parede, não são poucos os que brincam com os cadáveres dispostos em mesas frias às suas frentes. “Alguns ganham apelidos como risadinha, kiwi...”, diz Humberto, homem de poucas palavras e tímidos sorrisos que há três anos lava, prepara e preserva os 20 cadáveres que habitam o campus da São Judas. Apenas três são brancos. E somente um incomoda o funcionário. “ Não sei o que é, mas desde que ele chegou aqui, peguei nele e senti algo diferente. Fiquei umas três semanas sem dormir direito”. O repórter pergunta se ele reza antes do trabalho. “Às vezes, quando estou na correria para a aula e tenho que mexer muito rápido neles”. Respeito soa como lei absoluta na rotina de quem trabalha por aqui.

É Humberto que recepciona os corpos que chegam do Serviço de Verificação de Óbito da Prefeitura de São Paulo. Muitos vêm com nome e sobrenome em papel amarrado em um dos dedos dos pés, mas o auxiliar de laboratório prefere não lembrar quem são. “Tem horas em que fico pensando como foi a vida daquela pessoa, mas prefiro mesmo não saber”. A rotina de Humberto é quase a mesma todos os dias da semana. Chegar, arrumar a sala, preparar os corpos, separar aqueles que são glicerinados (mais duros) daqueles conservados apenas em formol (mais frescos), colocá-los em macas e posicioná-los nas mesas. O dia a dia só muda quando ele tem tempo para exercitar a técnica que aprendeu em um curso no Hospital das Clínicas, três anos atrás. Dissecar os cadáveres e colocar os órgãos dispostos cuidadosamente entre duas lâminas de vidro, para que os estudantes possam analisar o material sem danificá-lo. “Os professores usam meus trabalhos nas aulas”, revela o sergipano, com um quê de orgulho nos olhos que teimam em fixar o chão, mas principalmente com a sensação clara de que respeitou ainda mais a memória daquele que ajudou a proteger.

José Humberto dos Santos tem 41 anos de vida, mas foi nos três últimos em que passou lidando diariamente com a morte que aprendeu o que é respeitar e ser respeitado. “Doaria meu corpo para pesquisa, mas só para locais onde há respeito e condições de trabalho”. O respeito aparece novamente. No quadro da parede a frase diz que o destino deu aos corpos “o poder e a grandeza de servir à humanidade que por eles passou indiferente”. No que depender de Humberto, indiferença é a única coisa realmente morta dentro daquelas paredes.




Escrito por Antonio Guerreiro às 22h38
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Ela

Nome todo pra quê, moço? É Ela, estou falando. Pode anotar aí: E-L-A. Assim mesmo. Qualquer um me conhece por aqui. Manoela Dias Moricci é sincera e modesta quando afirma que apenas as três letras a identificam. Nas ruas do Bixiga, bairro onde mora há "cheguei aqui há mais tempo do que mereça ser lembrado", ela é Ela, Manu, Dona Manu, Manuela, Manoela ou a senhora do duzentos e tantos ("não anota o número da minha casa senão vem gente de todo canto me conhecer") da rua Treze de maio. Ela, aquela que faz máscaras.

"Tem aquela ali de palhaço, essa de comédia, a de tragédia aqui - sai bastante por estas bandas, viu?". É difícil saber a cor das paredes escondidas na casa de poucos cômodos. Os vermelhos, azuis, amarelos, laranjas e pretos das bocas, bochechas e lábios das obras de arte de Manu são a prova de que o visual pode gritar, embaralhando os sentidos.

"Comecei por brincadeira, na falta do que fazer." O marido faleceu há oito anos, trabalhava em restaurante e "ria disso tudo aqui." Os filhos não vieram "mas cheguei a preparar o enxoval uma vez, quando atrasou (sic) as regras." Família, só no interior, a mais tempo que quilometragem de distância. "As minhas caras me fazem companhia."

Dona Manu observa o Bixiga por buracos em formato de olhos nas paredes. E a visão, limitada pelo espaço da argila, é ampla no que vê. "Isso aqui caiu muito. Só pra ter uma idéia, moço, sabe essa janela aqui? Dormia aberta. Lembro de gente passando à noite, saindo dos bares e parando na frente da casa só pra ver as máscaras aqui dentro. Se fosse hoje, eu taria morta." Ir embora? "Já foi o tempo, a idade vem e, pra te falar a verdade, minha vida é esta aqui, nesse lugar. O meu lugar."

Analisar Manuela após bons minutos é encontrar a síntese do Bixiga: tradicional e subversiva, desapontada e resignada, apaixonada e apaixonante. Manoela pega uma cerveja "tomo duas por dia" apesar do frio lá fora, por causa do frio lá dentro e debruça o colo e o copo sobre o batente, colado à calçada. Enquanto continua a falar, diz mais e principalmente com o olhar que parece esperar pacientemente o dia em que no duzentos e tantos da Treze de maio não estarão mais o batente, a janela, a parede que nunca apareceu lá de fato, a vista da rua e das vielas.

Dia em que não haverá mais Ela.

Escrito por Antonio Guerreiro às 12h13
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A grita sobre a crise é tamanha que este, ao menos, faz acreditar que alguém ainda pode dar certo na vida. Pra quem ainda não viu, é o discurso de Steve Jobs aos formandos de Stanford, em duas partes, legendadas. Vale parar de acompanhar a queda da bolsa por alguns minutos.



E a parte 2:





Escrito por Antonio Guerreiro às 12h57
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Minha bola e meu rei

Foram aproximadamente três meses de sacrifício. Nada de cinema, bala ou brinquedo novo. Cada moeda ganha como mesada ou mesmo a troco de nada – como era comum naquela época em visitas de tios ou avós – ia direto ao porquinho. Porquinho de porcelana, com fenda nas costas e tudo o mais de direito. Ao término dos sofridos e disciplinadores noventa dias, morre o porco, nasce o sorriso. E lá se foi o garoto maroto pelos jardins das praias de Santos em busca de seu sonho maior.

Ao chegar ao bairro do Gonzaga, a respiração confirmava seu estado de espírito. Da avenida da praia à vitrine da loja foi menos que um pulo. E lá estava ela, muito mais linda que no dia anterior, muito menos bela do que estaria amanhã, após os primeiros toques de seu novo dono. Que não soe como presunção, mas tenho fé que a moça da loja até hoje guarda na lembrança o sorriso do menino ao segurar em suas mãos aquele primeiro troféu, aquele objeto de desejo tão amadurecido naquele coração com menos de uma década de vida. Papel de embrulho? Mas nem! Queria ir sentindo o couro, esfregando em suas mãos, deslizando pelo corpo até que pudesse finalmente encaixá-la em seu devido lugar: sobre os tênis kichute, frutos da economia no trimestre anterior.

O caminho de volta até a praia nem foi sentido. Estavam – sim, o plural é adequado, pois quem não acredita serem as bolas dotadas de sentimento? – entregues um ao outro, vivendo cada segundo de maneira única, fundindo pele e couro como jamais havia sido visto ou sentido em toda a existência.

E assim foram-se dias, semanas, meses e, se bem me lembro, até anos. O garoto e sua bola. Garoto este que não cansava nunca, apesar dos apelos da mãe. Até na escola a bola marcava presença. Bola letrada esta, em escola particular, pagando mensalidade e tudo o mais, afinal a caixinha mensal que o inspetor recebia para fingir que nada via só poderia ser chamada de quê?

Mas um caso em particular marcou a vida do garoto e da bola. Foi no ano seguinte ao encontro dos dois. O cenário: uma esquina da avenida dos clubes, na Ponta da Praia, naquela mesma Santos. Iam o menino, a bola, o kichute e o sorriso no melhor conjunto quando um semáforo os fez parar. E naquele dia, somente naquele dia, o menino deixou sua bola cair. A bola e a boca. Todo o amor e cada minuto de interação pareceram perder importância para o mais desatento dos pedestres ao lado, mas para este menino, não. Havia um motivo maior, uma razão que justificava todo o seu desapego inesperado, todo o espanto e seu comportamento pasmo. Ali, bem à sua frente, ao volante do Opala, estava o rei.

Se houvesse uma câmera ligada, diria que houve um slow motion. A bola quicava no chão na mesma cadência que os olhos do garoto piscavam tentando acreditar no que via. Mas não foi o bastante. Como que reconhecendo a derrota, ou mesmo admitindo sua condição de cúmplice e fã idem, nossa amiga de couro, a cada toque no chão ia quase que magneticamente parar na porta do carro, aos pés de sua majestade.

Como a história nos mostra, o rei é o rei. E tem comportamento real. Seu Edson, rei Pelé, abre a porta, um sorriso e descalço, sem kichute nem chuteira, deu aquele que, para este menino que agora aqui escreve – o mesmo de nossa história – foi seu chute mais perfeito, pois veio em minha direção, estacionando milimetricamente nestas mãos. O semáforo fez-se verde e o carro partiu, deixando naquela pequena calçada um menino, sua bola, o kichute e um sorriso que já dura, pelo menos, trinta anos.

Há tempos que não vejo mais minha amiga de couro. Perdeu-se em meio a tantas mudanças. Mas, assim como o sorriso, guardo uma certeza dentro de mim: a de que ela, minha primeira bola oficial de couro, onde quer que esteja, reciclada ou não, guarda com carinho o pedaço de pele que foi tocado pelo rei.




Escrito por Antonio Guerreiro às 16h32
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Drive Thru

Não me pergunte a data, coisa de cinco anos atrás. Inauguração da nova sede de uma das principais agências de publicidade do país. Imprensa em massa, celebridades (sempre elas), artistas (sim, às vezes aparecem) e o jogo de cena que é toda e qualquer festa em que dinheiro, fama e poder(seriam sinônimos?)se encontram.

Uma entrevista aqui, outra ali também, o produtor indicando com o dedo outro entrevistado enquanto você tenta prestar atenção àquilo que o atual está dizendo, enfim, rotina, quando alguém toca em meu braço. Acabo de gravar a sonora, olho pra o lado e vejo um dos principais nomes da música naquele ano. Sintonizava uma rádio popular? Sim, ele estava tocando, assistia ao Faustão, lá estava ele para, no domingo seguinte passar no Gugu. Já deu para entender. O cara.

- Guerreiro, vim encontrar a ....(outra cantora famosíssima que estava na festa, com quem o rapaz começava um chamego), mas não tenho a menor idéia do que seja isso aqui.

Antes, uma breve explicação: quando você faz televisão, não importa se as pessoas realmente te conhecem, o fato é que famoso ou quase-famoso têm um certo pacto. Todos se cumprimentam, se falam (quantas vezes você já não ouviu um entrevistador falar "meu amigo", "meu irmão" para mais de dez pessoas na mesma semana? - haja amizade ou família, mas tirando meia dúzia de autênticos e quinze ou vinte metidos à besta, o povo finge mesmo ser íntimo, ou, ao menos, acredita nisso). Voltemos ao dia, portanto:

- Olha, é a inauguração da nova sede da agência tal, os donos são tal e tal e bla bla bla....

- Ok, obrigado, é que tá cheio de gente aqui, nem sabia que ia ter tanta, de repente, se perguntam, eu já sei.

Feito. Agradece e, ato contínuo, meu produtor (em outro post prometo falar da mania que as pessoas de TV têm de chamar tudo de "seu", é "meu" produtor, "meu" programa, "meu" isso, "meu" aquilo, etc - ou seria "meu" etc?) pergunta ao cantor se pode dar uma entrevista. Ele confirma, volta em minha direção, a luz é acesa, cinegrafista dá o ok e faço a primeira pergunta - sobre as vendas do último CD.

- Oi Guerreiro, antes de responder quero dizer que é uma honra para mim participar de um evento que celebra a nova sede de uma das nossas grandes empresas de publicidade. Quero mandar um forte abraço aos meus dois amigos tal e tal, donos da agência e nomes consagrados da nossa propaganda e bla bla e bla.

Isso é que é ser profissional. Virei fã. Como diria Ronald, amo muito tudo isso.

Escrito por Antonio Guerreiro às 00h22
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Que Iphone?

Aula de comercial do povo da Nokia. Vale os pouco mais de dois minutos.



Escrito por Antonio Guerreiro às 01h36
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O que ninguém vê

E então você está sentado em frente ao espelho, com o televisor de sempre ligado, um relógio na tela do monitor mostrando quantos minutos faltam para que você passe a ser visto por muitos - sempre muitos - é o que se espera. Mas este dia, em especial, você sabe que os muitos são os últimos. Dá uma olhada nos guarda-roupas já devidamente vazios, checa se deixou a chave da gaveta da bancada na fechadura, agradece com um sorriso a atenção da maquiadora que, excepcionalmente, está calada e quando ela sai, fecha a porta para poder se trocar. A camareira preferiu não vir, apenas ligou perguntando se a roupa estava bem passada e se era aquilo mesmo que você queria. Não, não era, nada naquele dia, naquela noite, estava como você esperava que fosse.

Não muito tempo antes o clima era de expectativa, euforia. O segurança na porta do camarim falava alto, os produtores entravam e saíam, seu diretor passava os detalhes da estréia exaustivamente ("não esquece de chamar o break olhando pro lado e tenta não girar tanto a cadeira nessa hora", ele repete pela décima vez -mesmo assim, é tudo o que você quer ouvir). A porta é aberta, chegam flores da direção, um cartão afetuoso com as palavras de praxe. Sua família está lá. Mais do que isso, é você que está onde queria estar.

Hoje você lentamente se olha por última vez naquele espelho repleto de lâmpadas por todos os lados, finge um sorriso, e sai pelo corredor vazio em direção ao estúdio. O operador de microfone te cumprimenta sem olhar nos seus olhos. A voz é baixa. Seu produtor de estúdio, com as sobrancelhas para cima, passa as fichas que devem ser lidas, também evitando o olhar por mais de alguns segundos. Você passa pela equipe técnica, leva alguns tapinhas nas costas, um ou outro sinal de positivo e coloca o aparelho de ponto no ouvido. O diretor - que há tempos não é o mesmo da estréia - fala três ou quatro brincadeiras na tentativa de acordar o palhaço que vive naquele ator. Faltam 10, 9, 8 e no ar.

Quem assiste, nunca nota. O personagem comparece a contento diante de todos e todas. Ri, anda, corre quando preciso, usa as gags de sempre, e chama o break olhando para o lado, sem balançar a cadeira. O intervalo vem e as luzes do estúdio diminuem, a música some, papéis são entregues, outros devolvidos, chega sua água, alguém te passa um lenço para o suor, mas nada para enxugar o turbilhão que jorra por trás de tamanha represa. Nem haveria como. 5, 4, 3..ar. Mais dois ou três blocos assim e chega a vez do olhar. Não daqueles que fogem do seu, mas do homem por trás do ator para aquilo que chamam de lente, mas que carrega em seu outro lado muito mais que público e índices de audiência. Leva sonhos, história, estudos, vontade e aspirações não dos convidados que costumavam contar - com maior ou menor grau de sinceridade - detalhes de suas vidas naquele palco. Hoje a lente leva tudo de você em um simples tchau, desta vez, sem o tradicional "até a próxima". É a única diferença perceptível a quem assiste. Na semana que vem, nada do seu nome na grade publicada nos jornais, sites e revistas, emails pululando em sua caixa de entrada e você, sabendo que os remetentes somem em alguns dias, nem responderá. Até porque, ainda busque uma resposta.

O último olhar é acompanhado de um gesto qualquer com as mãos. A vinheta já rodou pela última vez, os créditos sobem e você fica parado ali, naquele cenário que ajudou a conceber, que viu ser construído e agora, em menos de 5 minutos começa a ser desmontado e empacotado em grandes pedaços de plástico preto. Os que cruzam contigo te dão um abraço, ensaiam uma ou outra expressão de apoio e incompreensão e você, o mais animado de todos, o personagem, agradece e diz que é assim mesmo.

A porta do camarim está aberta, não há mais segurança. Você nem troca de roupa. Pega sua mochila, caminha até a garagem, entra no carro ainda maquiado, pensa na sua família que não está ali porque você preferiu assim, engata a primeira e sai para ser engolido por uma metrópole que até minutos atrás te consumia.

"Por que" é sempre a pergunta, menos pelo motivo de tudo ter acontecido desta maneira e mais pelo fato de ainda não ter conseguido chorar. É assim que acontece.



Escrito por Antonio Guerreiro às 14h53
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Fim de fama

Creio que todos sabem ou imaginam o que é ser famoso, não? Paparazzi na porta de casa, a total impossibilidade de cumprir o mais prosaico trajeto sem a ajuda de seguranças, a exposição - consentida ou não - de cada detalhe de sua vida que de privada não tem quase nada mais.


Mas não é sobre este tipo de fama que permeia o imaginário universal que me refiro aqui. Falo de algo que chamo de quase-fama. O quase-lá. O ator com papel secundário na novela, o humorista que faz uma participação regular em programa popular, o repórter de emissora sem muita projeção. Não chegam a ser a modelo que vive de dar entrevistas, estão um patamar acima na escada rolante (que sempre, sempre sobe e desce) do chamado estrelato. Neste caso, do quase-estrelato. Ainda assim, vicia.


Esqueça os paparazzi, os seguranças, as multidões. Sim, como quase-lá você pode passear no shopping. Mas notará que, enquanto passa pelos corredores, há um movimento intenso de pescoços sendo virados dentro das lojas e cutucões e sussurros nos corredores por onde você passa fingindo - e depois de um certo tempo agindo sem fingimento - que nem nota. Poucos são aqueles que vêm te abordar, mas eles existem. Meninas com celulares para tirar fotos (acredito que estes aparelhos ainda sirvam para falar, não sei, preciso pesquisar), adolescentes em grupo transbordando testosterona que gritam seu nome seguido de um ou outro adjetivo não tão próprio para ser ouvido em família, senhoras que te param para dizer o quanto gostam de seu trabalho, enquanto pedem desculpas por não lembrarem qual é mesmo o seu nome.


No dia a dia, há a conta dos restaurantes que, usualmente, desaparece quando o dono do estabelecimento aparece ao final da sua refeição para dizer o tradicional "tá tudo certo" e pede uma foto, as produtoras de moda do Brás e Bom Retiro em São Paulo que te encaminham 30, 40, 50 peças de cada nova coleção de determinadas grifes e as recepções de prédios. Não, mesmo que eles não saibam ao certo como você se chama, você é o cara da televisão. Pronto, não precisa do RG. Ao telefone, suas chamadas são atendidas mais rapidamente, dificilmente uma empresa deixa de acionar o marketing ou sua assessoria de imprensa quando você os procura, mesmo que deixem apenas o cartão e digam que "se precisar...", as pessoas que demoram a responder a um simples pedido de informação nas ruas porque ficam te olhando e sorrindo, buscando na memória associar face a nome ou momento e o atendimento nos drive-thrus que transforma-se em evento em que cinco, seis, sete, oito atendentes se penduram por trás da janelinha com o esperado "é ele? Não, não é! Lógico que é! Quer ver? Como é o nome dele mesmo?" enquanto o seu pedido sai - invariavelmente - errado. Ingressos para shows, convites para finais de semana em hotéis e até a burocrática tarefa de reconhecer uma firma em um documento faz com que o quase-lá veja, em sua própria sala, um representante do cartório com o livro e selos de autenticação acompanhados de um papel em branco onde se pede o "autógrafo para a mãe".


No trabalho, há alguém para buscar água quando você está com sede. Outra pessoa para fazer ligações se você precisa falar com alguém. Há aqueles que te ajudam a se vestir. Outros que estão lá apenas para que tudo esteja como você quer na hora em que você precisar entrar em cena. Está sol? Surge um boné. Algo irá demorar mais que o previsto? Eles esperam por você. Sim, e isto é apenas parte da rotina do quase- famoso.


Dá para sentir falta dos paparazzi, seguranças e multidões? Sem experimentá-los não é possível afirmar, mas sim, é possível e orgânico sentir falta do descrito nos parágrafos acima quando os pescoços já não viram em direção ao corredor no shopping. Quando os cutucões e sussurros ficam por demais rarefeitos. Meninas passam sorrindo ao seu lado, mas não mais para você, carregando seus celulares cada vez mais coloridos e menores. Senhoras ainda te olham por vezes param e perguntam onde você está, embora você esteja ali, na frente delas naquele momento.


Esta passa a ser a pergunta-chave quando o quase-lá vê o lá ficar mais distante: "onde você está?". Sua presença física inexistia até então. O lá, dentro do tubo, sempre foi o grande fomento deste enorme espetáculo de inúmeros papéis a que você convencionou chamar de vida nos últimos anos. Mas é agora que a vida real se apresenta e cobra o saldo de sair de cena por tanto tempo. Onde está o RG? Quanto custa um copinho d´água? Não, ainda não é necessário comprar roupas, há peças demais no closet ainda com as etiquetas grudadas, mas o garçom faz uma brincadeira, diz que te adorava (sim, o verbo agora é conjugado no passado) e apresenta a conta (o que, acredite ou não, te deixa aliviado por saber que, ao menos, pode pagar pelo que come). Mas o alívio trazido por um passeio mais tranquilo logo transforma-se em algo muito próximo da síndrome de abstinência.


E é como disse dois parágrafos acima. É orgânico. Há aqueles que não aceitam e tentam alçar um ou quantos mais degraus da escada rolante abaixo desta fantástica fábrica da quase fama. Viram entrevistados oficiais de todo o qualquer programa. Sempre com um projeto novo que ainda não podem contar, mas que o apresentador à sua frente será "o primeiro a saber". Sempre "estudando propostas". E há os que permanecem resignados no mesmo degrau, sabendo que a escada desce, acompanhando aqueles que sobem no corredor ao seu lado e tentando encontrar algum nexo naquele movimento. Na verdade, buscando entender o motivo e o local (em qual degrau?) em que sua vida deixou de ser a real para transformar-se em uma imagem não de alta ou baixa, mas sem definição.


Torcendo para que a resposta surja antes do movimento da escada ser invertido novamente.




Escrito por Antonio Guerreiro às 14h48
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Otto

Nelson Rodrigues costumava dizer que deveriam colocar um taquígrafo atrás de Otto Lara Resende, anotando tudo o que ele falava para depois vender a uma loja de frases. Como fã incondicional de Otto, algumas de suas:

- Ultimamente, passarem-se muitos anos.

- Há em mim um velho que não sou eu.

- O mineiro seria um cara que não dá passo em falso, é cauteloso. Em Minas, não se diz cautela, se diz pré-cautela.

- Escrever é de amargar.

E a melhor delas:

- Deus é humorista.

Escrito por Antonio Guerreiro às 23h24
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Onde está?

Afinal, onde é que tá, Cristina? Tinha certeza de que tava aqui no meio dos nossos papéis, mas nada. Eu jurava que tinha visto ali, bem perto da nossa certidão de casamento, na gaveta da arca, mas agora não consigo encontrar, droga. Cê já procurou direito, Cristina?

Tem que estar aqui, em algum lugar, mas onde? Não sei como é que a gente consegue ser tão desorganizados, como é que conseguimos perder uma coisa tão importante? Tá bom, eu sei, se fosse tão importante assim eu já teria procurado antes, mas e você? Por que não me lembrou, Cristina? Precisou o Antonio, lá do serviço, me perguntar se a gente ainda tinha isso? Eu trabalho, Cristina, passo o dia todo fora, pegando duro pra conseguir alimentar vocês. Pensa que é fácil colocar comida todo dia aqui em casa? E ficar escutando: Papai, compra isso, Papai compra aquilo? Você que fica o dia inteiro aqui é que deveria saber onde andam as coisas, né Cristina?

Ô Cristina? Cristina? Cê tá me ouvindo, mulher? Então responde, caramba! Mais essa agora, eu perder uma manhã inteira de domingo procurando uma coisa que a gente sabe que tem. Mas o Antonio também tinha que me lembrar disso? Será que ele não tem o que fazer? Ô meu Deus...

Assim não dá, desisto. Eu não vou passar o único dia que tenho para descansar procurando essa coisa, afinal, depois desse tempo todo nem é tão importante assim saber onde é que está. O importante é ter, não precisa ficar olhando pra ele o tempo todo como se fosse um compromisso. A gente tem outras coisas mais importantes com o que se preocupar, ganhar dinheiro, fazer a feira, botar conforto dentro de casa.

Esse negócio de amor é pros jovens, eles sim adoram ficar admirando o amor, parecem que têm não sei o que nas mãos. É amorzinho pra cá, amorzinho pra lá...quanta frescura.

Ô Cristina, vem aqui, pega o chinelo pra mim, deixa esse negócio de amor pra lá. A gente sabe que tem e que tá aqui em casa, isso é o que importa, o resto é bobagem do Antonio. Vem pra cá.

Ô Cristina?

Pôxa, Cristina, faz tanto tempo que você nem olha mais pra mim...



Escrito por Antonio Guerreiro às 01h03
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Ator

     Com a vasta experiência de quem subiu aos palcos pela primeira vez há 30 anos, segurando um coraçãozinho de papelão na quarta fila à esquerda no palco de uma escolinha primária em Santos, posso me considerar um Shakespeare. Mesmo que, desde então, tenha pisado quase nada em um tablado novamente, achei que não seria problema enfrentar um dia na aula de cênicas. O cenário? A sala de aula de uma das principais escolas de Interpretação Dramática, em São Paulo. O figurino? Calça de moletom e camiseta de propaganda das eleições de 89, com o Aureliano Chaves estampado e puído. O grupo? Trinta alunos com cara de coitado. Não coitados, no plural, coitado mesmo. Não demorei a perceber que o coitado era eu.

     Aos cinco minutos de aquecimento, entra o diretor. Um cara cabeludo, de barba, usando óculos escuros. O que parecia ser uma boca embaixo de tudo isso gritou. "Mimetizando as emoções, mimetizando as emoções....agora!". Nem boa noite, nem olá, tampouco um como vão. Aprendi que a coisa no teatro é assim, mimetizar emoções logo de chofre. Só não descobri o que é mimetizar as emoções, mas isso não vem ao caso. Fiz caretas pequenas e mimetizei ao meu modo.

     Logo depois da mimetização coletiva, a roda. Grupo de teatro é que nem carro, moto, bicicleta. Tem que ter roda, senão não rola, literalmente. Sentados lado a lado, todos no chão, formando um círculo (a tal da roda), começa a ação. A ordem é fechar os olhos e, lentamente, deitar. Até aqui, beleza, 100% de aproveitamento. A voz do diretor - ou o que julgo ser - ordena. "Começando pelos pés, até chegar aos cabelos, tudo vai ficando duro como pedra". Alto lá, peraí, dos pés à cabeça, tudo duro? Tudo eu não garanto, não é assim tão fácil, como bem sabem os homens.

     “Agora eu quero que vocês sintam-se como pedras, ajam como pedras, respirem como pedras, vivam como pedras”. Pedras. Respirando, agindo, sentindo, vivendo. Pedras. Parei. Quando a pedra que brotava dentro de mim estava pronta para dizer chega ouço um “isso...assim...saindo...sentindo”. Tamanha profusão de “s” sibilando em meu ouvido me convenceu a ser uma pedra paciente. Abri meus olhos petrificados e só não ri porque embora respire, aja, sinta e viva, esta pedra não fora orientada a gargalhar. Havia três dezenas de pedras com braços, mãos, pescoços, ombros e tudo o mais, paradas pelos cantos da sala. Por alguns segundos ainda pude notar que havia uma pedrinha lourinha bem charmosa no grupo, mas quando teria meu primeiro momento rolling stone...

     “Relaxaaaaaaaaaaaaaa.....” As pedras amoleceram, ou melhor, saímos do “personagem”. O diretor, já sem os óculos, mas ainda com mais barba e cabelo do que qualquer hippie que eu tenha conhecido começa uma explanação sobre a vida dos objetos inanimados. E tome sentimentos em portas, postes, cadeiras, sim, afinal, imagine o que é sentir o peso de alguém sentado sobre suas costas a cada refeição. Vida difícil esta, a das cadeiras. Tudo para que o ator, enfim, possa desvincular o que sente daquilo que aprendeu a sentir (explicar esta frase levaria muito mais linhas do que este escriba tem disponíveis para este texto, portanto, diga ok e pronto).

     Uma hora e meia depois de entrar, o coitado saiu da aula com a impressão de que não seria mais o mesmo. Nunca mais chutei pedras na rua. Há duas semanas, só como em pé. E, quer saber? Paro por aqui. Alguma vez você já imaginou como deve ser doloroso para uma tecla de computador ser pressionada centenas de vezes só para que você possa satisfazer seus desejos de leitor? Coitado deste teclado, tá doendo até em mim.

 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 12h41
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Fim de fama

Creio que todos sabem ou imaginam o que é ser famoso, não? Paparazzi na porta de casa, a total impossibilidade de cumprir o mais prosaico trajeto sem a ajuda de seguranças, a exposição - consentida ou não - de cada detalhe de sua vida que de privada não tem quase nada mais.


Mas não é sobre este tipo de fama que permeia o imaginário universal que me refiro aqui. Falo de algo que chamo de quase-fama. O quase-lá. O ator com papel secundário na novela, o humorista que faz uma participação regular em programa popular, o repórter de emissora sem muita projeção. Não chegam a ser a modelo que vive de dar entrevistas, estão um patamar acima na escada rolante (que sempre, sempre sobe e desce) do chamado estrelato. Neste caso, do quase-estrelato. Ainda assim, vicia.


Esqueça os paparazzi, os seguranças, as multidões. Sim, como quase-lá você pode passear no shopping. Mas notará que, enquanto passa pelos corredores, há um movimento intenso de pescoços sendo virados dentro das lojas e cutucões e sussurros nos corredores por onde você passa fingindo - e depois de um certo tempo agindo sem fingimento - que nem nota. Poucos são aqueles que vêm te abordar, mas eles existem. Meninas com celulares para tirar fotos (acredito que estes aparelhos ainda sirvam para falar, não sei, preciso pesquisar), adolescentes em grupo transbordando testosterona que gritam seu nome seguido de um ou outro adjetivo não tão próprio para ser ouvido em família, senhoras que te param para dizer o quanto gostam de seu trabalho, enquanto pedem desculpas por não lembrarem qual é mesmo o seu nome.


No dia a dia, há a conta dos restaurantes que, usualmente, desaparece quando o dono do estabelecimento aparece ao final da sua refeição para dizer o tradicional "tá tudo certo" e pede uma foto, as produtoras de moda do Brás e Bom Retiro em São Paulo que te encaminham 30, 40, 50 peças de cada nova coleção de determinadas grifes e as recepções de prédios. Não, mesmo que eles não saibam ao certo como você se chama, você é o cara da televisão. Pronto, não precisa do RG. Ao telefone, suas chamadas são atendidas mais rapidamente, dificilmente uma empresa deixa de acionar o marketing ou sua assessoria de imprensa quando você os procura, mesmo que deixem apenas o cartão e digam que "se precisar...", as pessoas que demoram a responder a um simples pedido de informação nas ruas porque ficam te olhando e sorrindo, buscando na memória associar face a nome ou momento e o atendimento nos drive-thrus que transforma-se em evento em que cinco, seis, sete, oito atendentes se penduram por trás da janelinha com o esperado "é ele? Não, não é! Lógico que é! Quer ver? Como é o nome dele mesmo?" enquanto o seu pedido sai - invariavelmente - errado. Ingressos para shows, convites para finais de semana em hotéis e até a burocrática tarefa de reconhecer uma firma em um documento faz com que o quase-lá veja, em sua própria sala, um representante do cartório com o livro e selos de autenticação acompanhados de um papel em branco onde se pede o "autógrafo para a mãe".


No trabalho, há alguém para buscar água quando você está com sede. Outra pessoa para fazer ligações se você precisa falar com alguém. Há aqueles que te ajudam a se vestir. Outros que estão lá apenas para que tudo esteja como você quer na hora em que você precisar entrar em cena. Está sol? Surge um boné. Algo irá demorar mais que o previsto? Eles esperam por você. Sim, e isto é apenas parte da rotina do quase- famoso.


Dá para sentir falta dos paparazzi, seguranças e multidões? Sem experimentá-los não é possível afirmar, mas sim, é possível e orgânico sentir falta do descrito nos parágrafos acima quando os pescoços já não viram em direção ao corredor no shopping. Quando os cutucões e sussurros ficam por demais rarefeitos. Meninas passam sorrindo ao seu lado, mas não mais para você, carregando seus celulares cada vez mais coloridos e menores. Senhoras ainda te olham por vezes param e perguntam onde você está, embora você esteja ali, na frente delas naquele momento.


Esta passa a ser a pergunta-chave quando o quase-lá vê o lá ficar mais distante: "onde você está?". Sua presença física inexistia até então. O lá, dentro do tubo, sempre foi o grande fomento deste enorme espetáculo de inúmeros papéis a que você convencionou chamar de vida nos últimos anos. Mas é agora que a vida real se apresenta e cobra o saldo de sair de cena por tanto tempo. Onde está o RG? Quanto custa um copinho d´água? Não, ainda não é necessário comprar roupas, há peças demais no closet ainda com as etiquetas grudadas, mas o garçom faz uma brincadeira, diz que te adorava (sim, o verbo agora é conjugado no passado) e apresenta a conta (o que, acredite ou não, te deixa aliviado por saber que, ao menos, pode pagar pelo que come). Mas o alívio trazido por um passeio mais tranquilo logo transforma-se em algo muito próximo da síndrome de abstinência.


E é como disse dois parágrafos acima. É orgânico. Há aqueles que não aceitam e tentam alçar um ou quantos mais degraus da escada rolante abaixo desta fantástica fábrica da quase fama. Viram entrevistados oficiais de todo o qualquer programa. Sempre com um projeto novo que ainda não podem contar, mas que o apresentador à sua frente será "o primeiro a saber". Sempre "estudando propostas". E há os que permanecem resignados no mesmo degrau, sabendo que a escada desce, acompanhando aqueles que sobem no corredor ao seu lado e tentando encontrar algum nexo naquele movimento. Na verdade, buscando entender o motivo e o local (em qual degrau?) em que sua vida deixou de ser a real para transformar-se em uma imagem não de alta ou baixa, mas sem definição.


Torcendo para que a resposta surja antes do movimento da escada ser invertido novamente.



Escrito por Antonio Guerreiro às 00h19
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Fato fatal

Ele não merece, mas não deu para segurar. Acabo de ouvir Boris Casoy mandar a seguinte pérola, ao vivo, na Band News FM: "A dengue hemorrágica é uma fatalidade muitas vezes fatal e que pode causar a morte".

Vamos lá: a fatalidade é fatal. OK. E se uma fatalidade fatal é uma doença, o fato é que pode causar a morte. Fatalmente. Ou não.

Não tente entender.



Escrito por Antonio Guerreiro às 18h07
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Sonho de Consumo

Vejo nos jornais a foto em que Gisele Bündchen aparece com corte de cabelo que deixa sua franja caindo sobre a testa. Para ter destaque em ao menos dois dos principais diários do país, chego à óbvia conclusão de que a franja da Gisele rivaliza em importância com o terremoto em São Paulo ou a disputa democrata pela indicação de seu candidado às eleições presidenciais americanas. Nada contra, é preciso ter pão e circo, desde sempre. Mas fico aqui pensando no caminho que estas fotos estampadas nas publicações - sim, é evidente que a franja será onipresente nas revistas semanais - percorrem após serem impressas. Destino certo, sem chance de erro? Salões de beleza.

Pode perguntar a qualquer cabeleireiro. Do mais humilde àqueles que disponibilizam diferentes tipos de aroma para que você possa respirar o ar que quiser em cada cômodo do salão. Não há um só dia em que alguma cliente não entre com uma revista, jornal, recorte ou qualquer folha impressa trazendo a foto de alguma celebridade da moda acompanhada da frase "quero o meu cabelo assim!". E não adianta o profissional explicar que a artista tem o cabelo crespo e a cliente liso ou vice-versa. Quando elas querem, querem. E pronto. Mas não seria ótimo poder fazer o mesmo não com cabelos ou aparência, mas sim, com habilidades e talentos?

Chego a um estabelecimento sóbrio, onde todos me tratam de maneira cortês, cumprimento o proprietário, sou bem acomodado em uma cadeira próxima e aprecio o menu. Em alguns poucos minutos, tenho meu pedido: "Por gentileza, hoje eu quero o talento literário de Gay Talese, a compaixão do Dalai Lama, o carisma de John Kennedy e, só pra encerrar porque hoje estou com um pouquinho de pressa, a inteligência de Einstein. Amanhã eu volto e peço o restante".

Sonho de consumo. Se bem que, com tudo isso, o abdômen do Brad Pitt vir de brinde por milhagem eu não reclamo, não. 

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 13h42
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O que ninguém vê

E então você está sentado em frente ao espelho, com o televisor de sempre ligado, um relógio na tela do monitor mostrando quantos minutos faltam para que você passe a ser visto por muitos - sempre muitos - é o que se espera. Mas este dia, em especial, você sabe que os muitos são os últimos. Dá uma olhada nos guarda-roupas já devidamente vazios, checa se deixou a chave da gaveta da bancada na fechadura, agradece com um sorriso a atenção da maquiadora que, excepcionalmente, está calada e quando ela sai, fecha a porta para poder se trocar. A camareira preferiu não vir, apenas ligou perguntando se a roupa estava bem passada e se era aquilo mesmo que você queria. Não, não era, nada naquele dia, naquela noite, estava como você esperava que fosse.

Não muito tempo antes o clima era de expectativa, euforia. O segurança na porta do camarim falava alto, os produtores entravam e saíam, seu diretor passava os detalhes da estréia exaustivamente ("não esquece de chamar o break olhando pro lado e tenta não girar tanto a cadeira nessa hora", ele repete pela décima vez -mesmo assim, é tudo o que você quer ouvir). A porta é aberta, chegam flores da direção, um cartão afetuoso com as palavras de praxe. Sua família está lá. Mais do que isso, é você que está onde queria estar.

Hoje você lentamente se olha por última vez naquele espelho repleto de lâmpadas por todos os lados, finge um sorriso, e sai pelo corredor vazio em direção ao estúdio. O operador de microfone te cumprimenta sem olhar nos seus olhos. A voz é baixa. Seu produtor de estúdio, com as sobrancelhas para cima, passa as fichas que devem ser lidas, também evitando o olhar por mais de alguns segundos. Você passa pela equipe técnica, leva alguns tapinhas nas costas, um ou outro sinal de positivo e coloca o aparelho de ponto no ouvido. O diretor - que há tempos não é o mesmo da estréia - fala três ou quatro brincadeiras na tentativa de acordar o palhaço que vive naquele ator. Faltam 10, 9, 8 e no ar.

Quem assiste, nunca nota. O personagem comparece a contento diante de todos e todas. Ri, anda, corre quando preciso, usa as gags de sempre, e chama o break olhando para o lado, sem balançar a cadeira. O intervalo vem e as luzes do estúdio diminuem, a música some, papéis são entregues, outros devolvidos, chega sua água, alguém te passa um lenço para o suor, mas nada para enxugar o turbilhão que jorra por trás de tamanha represa. Nem haveria como. 5, 4, 3..ar. Mais dois ou três blocos assim e chega a vez do olhar. Não daqueles que fogem do seu, mas do homem por trás do ator para aquilo que chamam de lente, mas que carrega em seu outro lado muito mais que público e índices de audiência. Leva sonhos, história, estudos, vontade e aspirações não dos convidados que costumavam contar - com maior ou menor grau de sinceridade - detalhes de suas vidas naquele palco. Hoje a lente leva tudo de você em um simples tchau, desta vez, sem o tradicional "até a próxima". É a única diferença perceptível a quem assiste. Na semana que vem, nada do seu nome na grade publicada nos jornais, sites e revistas, emails pululando em sua caixa de entrada e você, sabendo que os remetentes somem em alguns dias, nem responderá. Até porque, ainda busque uma resposta.

O último olhar é acompanhado de um gesto qualquer com as mãos. A vinheta já rodou pela última vez, os créditos sobem e você fica parado ali, naquele cenário que ajudou a conceber, que viu ser construído e agora, em menos de 5 minutos começa a ser desmontado e empacotado em grandes pedaços de plástico preto. Os que cruzam contigo te dão um abraço, ensaiam uma ou outra expressão de apoio e incompreensão e você, o mais animado de todos, o personagem, agradece e diz que é assim mesmo.

A porta do camarim está aberta, não há mais segurança. Você nem troca de roupa. Pega sua mochila, caminha até a garagem, entra no carro ainda maquiado, pensa na sua família que não está ali porque você preferiu assim, engata a primeira e sai para ser engolido por uma metrópole que até minutos atrás te consumia.

"Por que" é sempre a pergunta, menos pelo motivo de tudo ter acontecido desta maneira e mais pelo fato de ainda não ter conseguido chorar. É assim que acontece.

 



Escrito por Antonio Guerreiro às 22h45
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Oráculo

Jornalistas, como eu, são especialistas em generalidades. Sabem três minutos sobre tudo e sabem absolutamente nada. Não, não tive a genialidade de tal frase. A autoria é do mestre Otto Lara Resende, que insistia em revisar, revisar e revisar seus textos a ponto de declarar certa vez que um autor não termina um livro, apenas o entrega. Se você não sabe quem foi - e continuará sempre sendo - Otto Lara, largue isso aqui e corra para o Google. Google, ao menos, você sabe quem é. Sim, QUEM é. Já virou celebridade, a maior delas.

Penso em como seria bom ter um Google real, não este virtual e branquinho (licença feita ao belo Google Black) em nossas vidas. Você está parte sentado e meio deitado, em mais uma de suas madrugadas tentando entender o porquê das coisas, quando basta olhar para o lado e Google está ali, pronto para te responder. Você diz "mas será que vai ser assim?" e ele te completa, preenchendo o vazio com dezenas, centenas, milhares de links verborrágicos. Tudo o que você precisava para dormir tranquilo. Alguém para falar por você. Uma entidade real que responde a qualquer dúvida, existencial ou paternalista, psicossomática ou social. Neste caso, quanto mais termos complicados você conseguir encaixar na classificação da sua angústia, maior será o número de resultados alcançados na busca.

Ainda assim, continuo buscando. O Google é meu terapeuta particular.



Escrito por Antonio Guerreiro às 00h06
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Antes do mais

Até onde sei, este é um espaço para escrever sobre o nada e aquele todo que o cerca.

Seja bem vindo.



Escrito por Antonio Guerreiro às 23h44
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